CRÔNICAS DE PADARIA

sábado, 26 de maio de 2012

O Dia-a-dia em 4 Fotos

Arte de Weberson Santiago



Parei para observar quatro partes do dia que são como surtos. Pessoas cruzam a cidade para chegar ao seu destino e cumprir seus compromissos. Tive de me obrigar a parar para observar, porque na maioria das vezes faço parte do impulso repentino da correria. Estou me deslocando de um lugar para o outro enquanto todo mundo está indo de um lugar para o outro. Tirei uma foto de cada surto da coletividade para tentar mostrar o que acontece com as pessoas.

A primeira foto é o surto da manhã. Falo da transição entre a noite e o dia, da alvorada. O dia amanhece e obriga a cair da cama. A Lúcia programa o despertador para às seis horas da manhã, mas se acostumou a acordar às quatro e meia só para confirmar que tem mais de uma hora de sono. Isto porque às seis da manhã começa a correria. Preparar o café da manhã, trocar as crianças, leva-las pra escola e ir trabalhar. Quando Lúcia está dentro do carro com os meninos e da ré na garagem ela é engolida pelo surto. Só pra sair da garagem é uma novela. Quando não são os carros passando em ritmo de corrida, é a bicicleta na contramão ou o transeunte cruzando a garagem fora da calçada. Interessante observar que, pela velocidade, ninguém parece recém-acordado, e sim muito atrasado.

A segunda foto é o surto do almoço. É quando a gente se pega incomodado de ter de deixar o que estava fazendo por uma hora, ainda que seja para satisfazer uma necessidade primordial: a fome. Você descobre que trabalha demais quando já não é capaz de perceber, pelas reações do seu corpo, a hora de se alimentar. Neste segundo momento de desespero do dia, é preciso buscar as crianças na escola e levar para almoçar. Toda semana o André fica bravo com seu filho porque ele vive a convidar algum amigo para ir brincar em casa sem a sua permissão. O André precisa reverter o combinado, apressadamente, na porta da escola e depois dá uma bronca no menino no caminho para casa. Mastigar fica incompatível com a correria, a gente engole a comida para arrumar tempo para digerir mais algumas pendências. O André aproveita a volta do almoço pra passar no banco antes de deixar seu filho no primeiro compromisso da tarde. O problema é enfrentar o pequeno congestionamento nas esquinas do centro da cidade, já que ele não é o único que se desloca nesse horário.

O lusco-fusco marca a terceira foto do anoitecer. Para alguns é o fim da jornada de trabalho, para outros o início. Para a maioria, o fim de um dia produtivo e a hora de cuidar da casa ou de ir estudar. Mariana trabalha todos os dias das sete às dezessete horas. Para ela, no intervalo da saída do serviço até o início das aulas na faculdade, cabe um banho e um lanche rápido. Ela estuda em outra cidade e a van sai uma hora antes da aula começar. Lucas aproveita esse intervalo para para passar no supermercado. O fim de tarde é o horário de pico para fazer as compras. Este terceiro surto do dia é definido pela certeza de pegar fila no caixa do supermercado ou no posto de gasolina para abastecer o carro.  

Na quarta foto, o vai-e-vem cai pela metade. Depois das dez da noite, uma parte das pessoas já se recolheu em sua casa e não pretende por os pés pra fora até que um novo dia comece. Dentre essas, uma parte está jogada na cama ou no sofá, enquanto a outra parte ainda está correndo, só que dentro de casa para terminar o que falta antes do dia chegar ao fim. E é nesse momento, que os estudantes do período noturno saem aos bandos das escolas da cidade, que as vans de universitários devolvem os futuros profissionais em suas casas.

Um curto período de tempo de silêncio até que este álbum recomece na primeira foto.

Num dia tão fragmentado, o complexo  é fazer uma coisa de cada vez pensando naquilo que  está fazendo, e não no que se tem pra fazer depois. Difícil também é ocupar todos os nossos papeis na hora certa – o do pai, o do chefe, o do trabalhador, o do marido, o do amigo ou os outros papéis que vamos ocupando vida afora – ao invés de ser uma média de todos esses, sem ser nenhum. Há o risco de trocar o papel da situação – ser pai do amigo, o chefe da mulher e o funcionário da filha e por aí vai. Em cada parte do dia, o difícil mesmo é ser inteiro.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| As cenas não fotografadas são mais definitivas para a nossa vida do que as que encontramos em nossos álbuns. O que se repete todos os dias é o que constrói o futuro.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 5, 26/05/2012, Edição Nº 1201. 

sábado, 12 de maio de 2012

A Lembrancinha da Viagem

Arte de Weberson Santiago



Fui dar uma aula de pós-graduação em São Paulo e descobri que não sei mais ser sozinho. Saí numa sexta-feira de manhã rumo à capital e, à medida que eu me distanciava do meu lar, um sentimento de ausência me ocupou o peito.

Já na lanchonete do posto que eu sempre paro pra tomar um café, lembrei que a Anelise adora o leite com chocolate que fazem por lá. Continuando na estrada, por vezes minha mão procurava a perna macia da Natália para descansar da aspereza do volante, mas encontrava o vazio.

Para consolar o sentimento, marquei com os amigos que não via há tempos alguns encontros antes e depois da aula, que aconteceu na noite daquele dia. No dia seguinte, depois de um bom banho, fui pra Galeria dos Pães. É uma padaria gigante onde os sanduíches recebem o nome de grandes pintores como Van Gogh, Da Vinci, Rodin, Salvador Dali e por aí vai.

Foi inevitável pensar que a Natália adora comer o Portinari, pão francês com queijo branco, tomate e orégano, mas não estava ali para degustar seu preferido. Foi então que percebi que eu não sei mais ser sozinho, funciono somente com ou outros dois terços, a Natália e Anelise. A saudade ganha cara de preocupação. A carência só pode ser disfarçada por meio de alguma compensação. Ao terminar o café da manhã, parti pro paraíso de pães e doces pra escolher um quitute para trazer para as duas. Era o que eu podia fazer.

O Mateus, 19 anos, havia conhecido a Carol, 17, há dois meses. Ficaram naquele passo a passo de aproximação, em que se buscam coincidências de gostos e datas, com direito a frases de dupla interpretação nas suas páginas do Facebook. Depois passaram a trocar mensagens diárias por SMS, até que marcaram um encontro. E depois dos primeiros beijos estavam os dois apaixonados. Os pais de Mateus estranharam a motivação triplicada, enquanto a mãe da Carol estava notando ela avoada.

Acontece que o Mateus tinha marcado uma viagem pelas cidades históricas de Minas Gerais com seus amigos, o que interrompeu o curso do seu envolvimento amoroso. O amor sempre entra na agenda sem planejamento, ao contrário das viagens com os amigos.

Enquanto descobria as igrejas de Ouro Preto, passeava pela praça de Tiradentes, apreciava os artesanatos de Mariana e conhecia os doze profetas de Aleijadinho em Congonhas do Campo, os seus pensamentos vagavam em busca da Carol.

Em cada lugar que passou, comprou um presente para a amada. Miniatura dos profetas em pedra sabão, tapete de tear manual pra ela colocar no quarto, pedras retiradas das grutas e outras coisas até encher a sua mochila. Quando ele voltou, a Carol ficou surpresa com a quantidade de mimos que recebeu, mas ouviu feliz a história de cada coisa que tirava da sacola.

Quando nós não podemos levar quem amamos até um lugar, roubamos um pedaço do lugar e levamos a quem amamos. O presente de viagem é uma evidência que mostra a nossa dependência. E entre todos os tipos de dependência que existem, prefiro a que surge do amor. Como toda dependência tem um pouco de loucura, justificar racionalmente o incômodo de estar sozinho soa como fragilidade. Uma loucura chamada insuficiência, que se torna saudável quando começa em uma falta percebida e termina em um sorriso diante das lembranças trazidas.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Demonstre a saudade quando ainda conta com a presença. Diante da ausência, é preciso ser professor da saudade e ensiná-la a se contentar apenas com a lembrança.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 12/05/2012, Edição Nº 1199. 

sábado, 28 de abril de 2012

O Desacreditado

Arte de Weberson Santiago




Por muitas vezes eu me vi como o desacreditado. Percebia que as pessoas me olhavam com desdém. Duvidavam dos alvos que eu mirava. Não apostavam em minha capacidade e esperavam qualquer dificuldade para apontar como uma confirmação de sua expectativa.

Era assim quando eu tentava subir no ringue para derrubar a obesidade que me acompanhava desde a infância. Nos primeiros anos, vários foram os especialistas contratados para ajudar, mas eu ainda não percebia o excesso de peso como problema e os fracassos foram se sucedendo.

Na adolescência, passei a encarar o problema como se fosse meu. Ficou realmente pesado carregar todos aqueles quilos e aceitar os olhares e os comentários quase nunca disfarçados. A cara de quem chegava no ônibus lotado e constatava que a única cadeira era ao meu lado denunciava o incômodo por eu ocupar mais espaço no mundo do que a maioria das pessoas. A cara era seguida pela atitude que confirmava o incômodo, a maioria preferia ficar de pé ao ocupar um terço de dois bancos.

O problema não era reconhecer a falta de controle diante da comida. Difícil era aceitar como os outros entendiam a questão: que a obesidade era apenas falta de força de vontade ou  excesso de preguiça de me exercitar. Não conseguia aceitar a explicação da auto-estima que diz que comer desenfreadamente é resultado da ausência dela. O que chamamos de auto-estima é um sentimento resultante da consideração de várias pessoas sobre aquilo que a gente faz ou pode fazer. E não se encontra consideração quando se é desacreditado.

Ocupar o lugar do desacreditado com muita frequência faz aceitar o descrédito. O mais perigoso é aceitar a falta de credibilidade e se acostumar com o sentimento da não confiar na própria superação. De tanto ser desacreditado, passei a acreditar que não era capaz de ser o mínimo suficiente. E há sempre alguém por perto para te lembrar. E a mudança fica cada vez mais distante.

É preciso muita força e a ajuda de pessoas confiáveis, que também acreditem, para conseguir sair deste cenário. Força é diferente de agressividade. Não é preciso tentar convencer quem desacreditou que você é capaz, mas é necessário manter o foco na superação do seu problema. Buscar estratégias sabendo que elas podem falhar e que, falhando, entrarão para a lista de tentativas. Por mais tempestuoso que se mostre um cenário, sempre há alternativas. Se não der certo, partir para uma próxima estratégia. Uma delas é a que dará certo para você.

Demorou um bocado de tempo e uma série de tentativas, mas eu consegui me livrar de mais de sessenta quilos que me incomodavam. Magro, recebi a proposta de trabalhar com esporte e com atletas. Foi aí que me senti desacreditado novamente, mas mais uma vez fui persistente para mostrar o contrário. Hoje, parte do meu trabalho é fazer as pessoas reencontrarem o crédito em si mesmas que elas perderam pela vida afora.

Um desacreditado teimoso é capaz de se tornar o bem sucedido. E aquele que desacredita costuma ser tão fiel aos seus julgamentos que, quando se depara com o sucesso de quem desacreditou, fica confuso. Não consegue acreditar que se enganou e se recusa a reavaliar os seus critérios num primeiro momento.

A melhor saída é desacreditar em quem desacreditou de você. Não dê ouvidos a quem dá de ombros para sua capacidade.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Eu ainda acredito em um mundo em que as pessoas se apoiem mais e duvidem menos umas das outras.



Publicado no 
Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 5, 28/04/2012, Edição Nº 1197. 

sábado, 14 de abril de 2012

O Trabalho Sob Dois Pontos de Vista

Arte de Weberson Santiago




Existem duas faces de uma mesma moeda que me fazem pensar muito. São os dois lados de uma relação que tem o objetivo de produzir um monte de moedas. Falo da situação do trabalhador e de quem comanda um conjunto deles. Aqui no interior, chama-se de patrão e empregado. Nas organizações que se dizem modernas fala-se em líder e colaboradores. É o chefe e o funcionário.

São duas pessoas, uma na posição de executar algo para uma finalidade e outra que deve comandar um grupo de pessoas e conduzi-las a um objetivo. Quando se chega perto de cada um dos dois lados é que se pode observar as contradições.

Ser trabalhador não é moleza. Aliás, a moleza não tem lugar. Independentemente do dia, tem de se apresentar no horário, com tolerância máxima de cinco minutos para mais e cinco para menos e picar o cartão. Cartão picado significa já sair produzindo, sem mais delongas. Não importa se levantou com o pé direito, se acordou de mal humor, se está cheio de problemas fora do trabalho. É preciso deixar tudo de lado e trabalhar.

Quem não tem emprego, pensa que os seus problemas acabarão quando conseguir o seu. Quem já tem um, percebe que trabalhar é saber administrar problemas e que eles sempre farão parte da sua rotina. Você é contratado para resolver problemas, para evitar a recorrência dos problemas e de preferência extermina-lo para todo o sempre, para que possa vir o próximo.

Nem sempre o ocupante da vaga de trabalho sabe o que esperam dele. Parece que por mais que ele faça, a única coisa que consegue é evitar uma demissão. Reconhecimento? Este sim está desempregado. Não vem encontrando lugar para trabalhar em lugar nenhum. E olha que faz tempo que o reconhecimento vem circulando os anúncios dos classificados nos jornais à procura de uma oportunidade. O dia que contratarem o reconhecimento, vão descobrir que não é o dinheiro o maior motivador do trabalhador.

Ao contrário do que muitos pensam, o que aumenta a produtividade é ser visto. É experimentar que o seu empenho causa mais do que indiferença, que é capaz de gerar interesse, que promove satisfação e que definitivamente é importante para alguém. Aquele que se diz motivado sente que seu desempenho é maior que a vaga, que sua capacidade ultrapassa o cargo e que a sua criatividade só é limitada pelo espaço que lhe dão para coloca-la em prática.

Se eu já senti tudo isso como trabalhador, andei experimentando recentemente o outro lado. Como é difícil gerir uma equipe. Na hora de tomar a decisão, é preciso ter como prioridade a necessidade da empresa, em segundo lugar entender as necessidades dos funcionários. Como conciliar e respeitar as necessidades de pessoas tão diferentes, com histórias de vida tão distintas e prioridades das mais diversas?

Fico intrigado com a dificuldade que o brasileiro tem com a rotina. Não há um mês que consiga deixar o cartão de ponto em dia e sempre tem a justificativa mais mirabolante. É um sacrifício seguir uma rotina, resolver um problemas definitivamente ao invés de ficar consertando com uma gambiarra. Se eu descobrisse quem inventou o jeitinho brasileiro, demitiria do mundo na hora, sem aviso prévio.

Na hora de pensar como o empresário, é mais fácil ficar com pena do que querer ocupar o lugar do dono. Outro dia conheci um empresário cheio de boa vontade querendo propor um horário flexível aos funcionários, mas que descobriu que isto contraria as leis trabalhistas. Na hora de administrar a insatisfação de qualquer um dos seus colaboradores, descobriu que cada um defende apenas seu interesse e que ninguém está disposto a abrir mão. O chefe que pressiona já não sabe mais como conseguir o que quer de outra forma e não percebe que o resultado é o contrário.

O que verdadeiramente falta para estes dois lados é se colocar no lugar do outro. Ficaria mais fácil agir entendendo como o outro lado se sente diante das decisões que são tomadas. Ao invés de atacar, acatar que um lado depende do outro na mesma proporção. Quando cada lado caminha para um sentido, o todo chega ao lugar nenhum.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Acreditar que pode existir lugar para os limites humanos no trabalho não é ilusão, é parar de negar que todo ser humano tem limites.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 5, 14/04/2012, Edição Nº 1195. 


sábado, 31 de março de 2012

20 Coisas Que Não Me Avisaram

Arte de Weberson Santiago



Existem coisas que ninguém fala pra gente e temos de descobrir na prática. O problema é que demoramos para chegar a uma conclusão que, falada, certamente simplificaria nossa caminhada. Faço uma lista das coisas que descobri e que gostaria que tivessem me avisado.

Não me avisaram que os dias quentes não justificam a moleza [1]. Nunca fui avisado que a segunda-feira é um dia de adaptação [2]. Não me contaram que demoramos uma semana para se acostumar com o tempo livre das férias e que começamos a sofrer uma semana antes de retornar as atividades [3]. Nunca me disseram que férias só existem na infância, certamente teria aproveitado mais [4].

Se alguém tivesse me dito que o casamento deve combinar os três sentimentos, tudo seria mais fácil. Uma grande dose de amor com pitadas de paixão e amizade [5]. Se tivessem me avisado que o amor é menos explosivo que a paixão e que o amor é menos morno e seguro do que a amizade, talvez não tivesse tido tanta dificuldade nessa questão [6]. Se alguém tivesse me dito que eu passaria o resto da vida tentando equilibrar o amor, a paixão e a amizade, mais fácil seria encontrar o sentimento de felicidade [7].

Alguém se esqueceu de me avisar que promessa não é dívida, é compromisso [8]. Faltou dizer que é mais difícil cumprir o que prometemos a nós mesmos do que aquilo que firmamos com os outros [9]. E que comprometimento  verdadeiro são as ações que promovem o bem da maioria das pessoas. Não me avisaram que ser justo na conduta é o mesmo que ser protegido pela sua própria ação [10].

Ninguém me falou que o melhor amigo do homem não deveria ser o cachorro, mas sim o próprio homem [11]. Me disseram que sem atrevimento não é possível conquistar as coisas na vida, mas não me informaram que quando a ousadia for na hora errada, o resultado é o contrário do que se queria [12].  Tive de descobrir que uma atitude correta no contexto inadequado só pode trazer um resultado inesperado [13].

Esqueceram de me avisar que um dos desafios da vida é construir uma ponte entre o agir e o pensar, de forma que se estabeleça uma coerência [14]. Por não ter sido avisado, tive de superar o conflito entre o que eu penso e o que eu faço.

Não fui avisado que focinho de porco não é tomada e pensei que o aparelho estava quebrado, que faltava a energia e até que eu era azarado [15]. Não me preveniram que cada escolha tem suas consequências e que, feita a escolha, as outras opções devem ser deixadas de lado, esquecidas, ignoradas [16]. Nunca me disseram que a gente se acostuma com o que é ruim, que a gente se sujeita a situações humilhantes para manter o pouco daquilo com que nos apegamos [17].

Não fui conhecedor de que brincar com as palavras pode seria perigoso, mas precisei aprender a usá-las para me defender [18].

Ninguém me fez ciente que mataría boa parte do meus problemas se trabalhasse mais a aceitação e o comprometimento [19].

Nunca me ensinaram que amor não se exige, se dá. E que uma vez dado, não há como pedir de volta [20].

 UM CAFÉ E A CONTA!
| O que não me avisaram, eu tive que aprender na prática, experimentando.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 5, 31/03/2012, Edição Nº 1193.



sábado, 24 de março de 2012

Educar é Desaprender

Arte de Werberson Santiago




Educar uma criança sempre é um desafio. Precisamos dedicar tempo para ensinar, corrigir, mostrar como se faz, explicar o que não se deve fazer na esperança que a lição seja entendida e que o comportamento futuro seja adequado.

A Anelise é uma criança que conquista facilmente a simpatia de quem a conhece. Sua espontaneidade é envolvente, suas percepções contadas são interessantes para uma menina de quatro anos. Apesar de não passar indiferente em qualquer ambiente, andei preocupado com o fato dela fugir de cumprimentar as pessoas quando nós chegamos em algum lugar.

Preocupado com a questão, resolvi recorrer a minha tia Egle. Me lembrava que ela usava um procedimento interessante quando a minha prima Ana Helena era criança. Ela se destacava por cumprimentar todas as pessoas quando chegava em um aniversário ou reunião de família. Sabia que a minha tia teria o passo a passo para que eu pudesse ensinar este novo comportamento à pequena.

Como eu já desconfiava, ela me disse que o maior erro é forçar a aproximação, empurrar a criança para beijar o parente. Forçar a aproximação pode incitar aquele comportamento de esconder atrás do pai ou da mãe, de grudar na perna feito um macaquinho. Ela explicou que adultos estranhos, mesmo que em meio a conhecidos, parecem ameaçadores para a criança. Pode ser pior coagir do que não cumprimentar. Quando se obriga, corre-se o risco dela explicar porque não quer dar um beijo na tia Cacilda e gerar aquele tipo de constrangimento:

— Vai, Anelise, dá um beijo na tia Cacilda!

— Eu não quero, ela tem bigode e parece uma bruxa...

O procedimento bem sucedido da tia Egle começava dentro de casa. Ela explicava pra Ana Helena aonde eles iriam e quem estaria lá. Especificava os convidados da festa, citava seus nomes e dizia que teria mais algumas pessoas que ela não conhecia, mas que eram amigos dos conhecidos. No percurso de carro, relembrava a Ana Helena de cumprimentar cada um dos presentes porque eles ficariam felizes com a sua educação.

A Natália e eu registramos todos os detalhes e colocamos o plano em prática. E não é que funcionou? A Anelise deixou de se retrair e passou a saudar as pessoas quando chegamos nalgum lugar. Animado, voltei para contar o resultado para minha tia.

Ela ficou satisfeita com os primeiros passos, mas, como boa professora, resolveu contar o que aconteceu em uma determinada ocasião. Sua família chegava a uma festa acompanhada dos meus avós. Na porta da casa estava sentado um morador de rua conhecido na cidade. Minha prima Ana Helena não hesitou em pôr em prática o costume de sempre. Deu a mão ao pedinte para lhe cumprimentar. Minha avó já queria interceder e impedir o contato quando minha tia pediu que ela deixasse. E a Ana Helena tascou um beijo no rosto do mendigo.

Ela disse que deixou para me contar esta parte de sua experiência depois que eu acreditasse e testasse a técnica que ela me ensinou, pois só assim ela poderia funcionar. A segunda parte da lição consistia em entender que eu não deveria desdizer uma regra que eu mesmo criara, mesmo numa situação difícil como aquela que aconteceu com a minha prima. “Foi só levar ela pra lavar a mão depois”, contou.

Para educar é preciso ser coerente naquilo que anunciamos e naquilo que fazemos. A criança não aceita exceções que partam do adulto que a ensinou como deve fazer. Ao descumprir a regra, jogamos fora todo o esforço de proporcionar a aprendizagem.

É quando a gente acha que está ensinando que descobrimos quem tomou a lição. Educar é desaprender o que a gente acha que sabe para ensinar o que a gente ainda não aprendeu.


 UM CAFÉ E A CONTA!
| Desaprender é tão importante quanto estar disposto aprender. Há quem passe uma vida achando que sabe.

sábado, 17 de março de 2012

O Noivado

Arte de Weberson Santiago



O noivado é a ocasião ou festa que estabelece o COMPROMISSO de matrimônio de um homem com uma mulher. Simples na definição, deliciosamente complicado na prática.

No final do ano passado decidi que ficaria noivo da Natália. Decidi por nós dois. Queria fazer uma surpresa para ela e correr o risco da resposta ser uma surpresa para mim. Não temia o não. Talvez tivesse um pouco de medo do sim e do que aconteceria depois dele, mas mesmo assim juntei a grana e fui a uma joalheria escolher o par de elos.

A escolha não foi simples. Era preciso escolher uma que a agradasse. Aí que começou o problema. Eu gostei de uma mais fina, de sua singela discrição, mas tive a certeza que ela gostaria de uma bem larga. Pra mulher, a largura da aliança é proporcional ao tamanho do sentimento. Eu não sou pão duro para as coisas que são importantes. Não foi por ser mais barata que gostei da aliança mais fina, mas imediatamente pensei no gosto dela e escolhi pelo gosto dela.

Para a mulher, ficar noiva é como comprar o ingresso do show da sua banda preferida. É saber que um dia você estará cara a cara com seu sonho, embora o palco seja o altar da igreja e no lugar do vocalista se encontra o padre. O anel é a promessa de sua validação como mulher perfeita e realizada, que de tão perfeita foi escolhida.

A mulher encara o aro como espiral e não se importa com as voltas que a relação vai dar desde que termine no altar. Depois de aceitar o pedido, gosta de exibir a aliança como se tivesse ganhado na loteria. Estica o braço para a mão chegar na frente. Torce para uma luz qualquer reluzir o ouro e ofuscar a vista das outras mulheres.

Quando o tíquete saiu da máquina de cartão e a dona da loja me deu a sacola com o par de alianças, eu tremi. Senti um frio na barriga, as pernas trêmulas. Ela se agaixou e pegou uma garrafa de vinho, um presente de fim de ano da loja, e precisou repetir para que eu pegasse  a garrafa tamanho o meu estado de congelamento. Grandes passos são acompanhados de fortes emoções.

Nervoso mesmo eu fiquei no dia. Escolhi o dia de Natal, o almoço em família. Meu único parceiro do segredo foi o meu avô. Uma semana antes disse que havia escolhido o Natal para meu noivado. Ele ficou contente e contou: “eu e a sua avó ficamos noivos em um dia de Natal”. Quem ficou satisfeito fui eu, como se a data escolhida fizesse mais sentido depois desta co-incidência de datas.

No dia fatídico, eu não cabia mais em mim. Queria que chegasse logo o grande momento. Haviamos planejado o brinde depois do almoço como a grande hora, até que aconteceu o imprevisto. Dividíamos uma poltrona, quando a Natália apoiou o copo na minha perna e percebeu a caixinha quadrada no bolso. “Você não vai fazer isso, vai?”, disse. “Vou sim”, respodi.

Mas aqui, na frente de todo mundo?

— Sim, daqui a pouco, na frente de todo mundo.

— Me trás alguma coisa para beber? – pediu ofegante.

— Não, vai ser sem beber nada!

Antecipei o pedido para antes do almoço, com medo de não conseguir comer todas aquelas comidas gostosas caso o noivado ficasse para a sobremesa. Peguei todos de surpresa, menos aquela que deveria ser surpreendida, mas mesmo assim foi romântico e inesquecível.

Olho para o aro brilhante e espelhado e vejo meu reflexo na superfície abaulada. A minha aliança é como um espelho que carrego no dedo. Sendo o símbolo de uma parceria que deve ficar mais sólida a cada dia até chegar no casamento, percebo que a aliança representa muito bem o dia a dia da relação.

Tem dia em que ela está brilhante, tem dias em que ela está embaçada. Às vezes ela fica larga no dedo, tem horas que ela fica justa e aperta. E ainda sim, a aliança é envolvente, me preserva contido em seu interior. Percebi que ando gesticulando com um certo orgulho a mais. Costumo falar muito com as mãos e ando fazendo joinha para exibir a aliança, apontando com o dedo indicador para sugerir qualquer coisa só pra me lembrar do meu COMPROMISSO. Aquele em que eu escolho estar comprometido a cada dia.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Se o COMPROMISSO é simples na definição e complicado no cotidiano, a opção é pela complicação de simplificar a vida a dois.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 5, 17/03/2012, Edição Nº 1191.