CRÔNICAS DE PADARIA

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sobre o tempo, o espaço e as relações humanas

O tempo é uma questão que sempre intrigou a humanidade. O debate sobre este conceito mobilizou filósofos e cientistas durante os últimos séculos e ainda é tema de discussões até hoje.

Immanuel Kant, em seu escrito Crítica da Razão Pura1 afirma que "o tempo nada mais é que a forma da nossa intuição interna" (p. 54). Para outros filósofos, o tempo é mais do que isso, algo que é o que é independentemente de nós humanos (ou seres dotados de consciência) e da nossa "intuição interna". O filósofo McTaggart argumenta que o tempo não tem característica alguma por ser irreal. Em seu artigo A Irrealidade do Tempo discorda de Kant afirmando que o tempo não existe, embora tenhamos a ilusão de tempo.

Filosofia do tempo à parte, é possível encontrar discussões do conceito em outras áreas do conhecimento, por exemplo, o tempo na física. O professor Henrique Fleming2 aborda as contribuições da física para a natureza do tempo e de outros conceitos científicos fundamentais em um artigo publicado na Revista USP3. São três questionamentos e, porque não, problemas encontrados.

Para o autor, o tempo flui em um sentido bem definido, cuja manifestação mais dramática é o nosso envelhecimento biológico. Surpreendentemente, a inclusão deste dado da realidade (a "flecha do tempo") no ideário da física teórica constituiu um dos grandes problemas dos últimos cem anos. O primeiro problema dos três consiste em digerir esse surpreendente resultado, cabendo aos físicos recuperar, dentro do seu formalismo, a naturalidade das concepções intuitivas de passado e futuro. É uma tarefa muito técnica da qual se pode mencionar: só para sistemas com um grande número de constituintes existe, nítido (mas probabilístico), o sentido do tempo. Para sistemas constituídos por um pequeno número de elementos, perde-se a sua flecha. Foi Ludwig Boltzmann, numa das maiores realizações da história da física, mostrou que a flecha do tempo é um fenômeno estatístico. A probabilidade de o ancião rejuvenescer é essencialmente zero, enquanto que a de um jovem envelhecer é essencialmente 1.

O segundo problema, de acordo com Fleming (1989), diz respeito à individualidade (e objetividade) do conceito de tempo. Em 1908, após ter estudado a teoria da relatividade, o grande matemático Hermann Minkowski iniciou sua célebre conferência dizendo: "As visões do espaço e do tempo que eu desejo expor diante dos senhores brotaram do solo da física experimental, e aí está a sua forca. São radicais. De agora em diante o espaço em si mesmo, e o tempo em si mesmo, estão designados a dissolver-se em meras sombras, e somente em uma espécie de união dos dois subsistirá uma realidade independente". Esta união é o espaço-tempo, e aprendemos com a teoria da relatividade que a sua decomposição em espaço e tempo separados depende do observador, isto é, é subjetiva.

Mais surpreendente ainda é o terceiro, fruto da relatividade geral, lançada por Einstein em 1916. Aqui aprenderemos que é possível agir sobre o espaço-tempo, e, portanto, sobre o tempo. Deixa o espaço-tempo seu papel passivo de palco dos acontecimentos para tornar-se, ele mesmo, um sistema físico, e atinge-se, finalmente, a possibilidade de estudar o sistema físico por excelência: o Universo como um todo. A história do Universo é a história do tempo, como bem a designou S. W. Hawking, grande físico teórico inglês contemporâneo (Fleming, 1989).

A noção do tempo na física, assim como na filosofia, teve implicações diretas para a psicologia. Tomando por base o legado de B. F. Skinner, o conceito de espaço-tempo está intrinsecamente ligado a sua proposta de comportamento operante. Segundo Skinner, este caráter ativo e probabilístico do comportamento humano deveria ser o objeto de estudo da psicologia. O espaço-tempo é considerado sem extrapolações subjetivas ou “intuitivas”. Skinner criou metodologias de registro acumulado de comportamentos para estudar os organismos, atribuindo o status devido ao conceito em uma psicologia experimental. Outros pesquisadores operantes apontaram a influência dos prazos e de seu anúncio para o comportamento humano e os efeitos de diferentes intervalos de tempo na ocorrência de comportamentos.

Para as relações humanas, interpessoais ou individuais, o tempo se apresenta como uma variável crítica. Embora nosso comportamento sobre o mundo seja ativo e o sistema espaço-tempo não tenha um papel passivo, a análise que se faz das relações humanas nem sempre considera tais características. As relações humanas podem se alteradas de forma biunívoca pelo sistema espaço-tempo. O próprio debate criado em torno do tempo na história da humanidade nas diferentes áreas do conhecimento, este diálogo algumas vezes espicaçante entre autores (relação humana), está circunscrito pelo espaço-tempo.

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1. Kant, I. (1983) Crítica da Razão Pura. Os Pensadores: Kant, trad. Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Abril Cultural.

2. Professor do Instituto de Física da USP, no departamento de Física Matemática. Site: hfleming.com.

3. Fleming, H. (1989) “O Tempo na Física”. Dossiê Tempo, n. 2, pp. 3-6. São Paulo: CCS-USP.

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Dedico este ensaio ao meu irmão Caio, pelo apoio que me deu em São Paulo na última vez que lá estive e também pela sua breve mais importante passagem pela Física da Unicamp.


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