quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Pegadoras

As mulheres chegam a 2010 ocupando um espaço diferente na sociedade daquele ocupado nos últimos séculos, não há dúvida. É dito à exaustão que sua participação no mercado de trabalho só vem aumentando, e mais, muitos ousam dizer que elas cumprem seus deveres de forma mais eficiente do que os businessmen. A comparação facilmente pode ser deixada de lado, mas a constatação do que vem acontecendo não.

“Durante o século XXI, a mulher emancipou-se” – diz-se inclusive na psicologia. Emancipar-se, segundo o dicionário Houaiss, é tornar-se independente, libertar-se, eximir-se de pátrio poder. Tenho cá minhas dúvidas desta tal emancipação. Calejadas com a espera do príncipe no cavalo branco, quase sempre frustrada, elas resolveram agir à galope. As mulheres estão “pegadoras” e andam se orgulhando disso. Nada possível se ela estivesse sozinha, e é aí que entram as amigas, para reforçar socialmente suas “novas” atitudes e encobrir algum comportamento sempre que for necessário. Essa mudança de comportamento seria a tal liberdade que não existia no tempo passado? Uma independência do machismo ou um feminismo machista?

Afinal, agora é a vez delas de não ligar ou sequer atender o telefone no dia seguinte de uma noite lasciva e pretensa. Descobriram que também tem o que bater na mesa para dizer quem manda. E sem truculência alguma. Com a sutileza de uma folha que cai da árvore. Aquela típica cruzada de pernas é coisa do passado, elas vão muito além.

Em nome de poder estudar, votar, igualizar os seus direitos, trabalhar, pensar, decidir o seu destino, gostar, gozar da sua sexualidade, julgar e tomar decisões sobre a sua vida e o seu ambiente elas parecem ter perdido a medida. Testam seu poder sobre os homens em situações das mais diversas. Na tentativa de estabelecer uma maior independência e autonomia, houve uma perda da feminilidade, ou melhor, o estabelecimento de uma feminilidade padrão, expressa gritantemente na aparência física de quem compra a fachada de bem suscedida.

O discurso feminista anti-pátrio-poder levantou o ataque ao machismo e acabou por elevar o feminismo ao mesmo status. A admiração a mulher multiprofissional que é capaz de lidar com diferentes demandas com sucesso é a conseqüência de tal discurso.

Analisemos uma máxima deste movimento: “A mulher assumiu poder, em casa, no trabalho, na política, na sociedade com o compromisso, a carga e a exigência que isso implica. Estas mudanças em um dos dois pilares da espécie exigiram reajustamentos em seu companheiro, o homem, ele, teve de se adaptar à concorrência em espaços que ele ocupava por ‘direito’”.

Volto a questionar: será que as mulheres sabem mesmo qual a carga e as exigências do lugar que ocupam hoje na sociedade? Penso que não. É a pretensão de quem profere tal discurso, que faz minha tataravó parecer uma fracassada e sem papel no mundo, o que me incomoda, por implicitamente considerar o pioneirismo feminino como se ocorresse apenas na atualidade. As matriarcas sempre souberam fazer valer sua opinião de forma indireta via persuasão, e isto é constatado inclusive em diferentes culturas.

A segunda afirmação toca na repercussão das mudanças para o homem. Não vejo no discurso deles indícios de medo de ultrapassagem ou necessidade de brigar por espaço, já que aprenderam os benefícios de exercitar a sensibilidade, mesmo que com limites, e a participar de forma mais ativa da vida familiar. A crise masculina se dá mais com a rotina do que com relação ao papel ocupado pela mulher na sociedade e na família.

Hoje em dia, a sensação de que no estádio da vida as cadeiras não são numeradas ou cativas independe do gênero. A dificuldade com as mudanças rápidas e com as incertezas do panorama mundial repercutiu na diminuição da função integradora feminina. O poder da soma parece ter sido esquecido pelas mulheres. É aguardar as cenas do próximo capítulo, cuja tendência é sair dos extremos e encontrar um equilíbrio.

A.A.N.

Dezembro/2009

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A arte é uma peça publicitária da marca Diesel, cujo slogan é live fast ("viva depressa") .

3 comentários:

PADRE disse...

As mulheres se colocam a pé de igualdade com os homens mas a questão é será que os homens estão preparados para se adaptar a tais mudanças ou ainda mais elas conseguirão conciliar a vida de mãe esposa mulher com esse multiproficionalismo da atualidade sendo que poderiam acabar deixando de lado ou de acompanhar certas etapas que são importantes para elas e para os filhos como o primeiro dia de aula que é sinal para a criança de uma mudança de uma passagem, essa que por serviço ocupações profissionais referente a mãe seria então acompanhado por uma empregada que não representa a proteção e confiança referente a mãe

maichel disse...

Se iniciarmos uma análise levando em consideração gêneros(masculino e feminino), certamente teremos inclinação para o lado masculino, sendo que somos homens e, se por ventura, levarmos em consideração opiniões de mulheres, certamente tais inclinações serão percebidas em seu discurso;todavia, deixando de lado inclinações e possíveis influências quanto ao gênero, se partirmos do ponto em que, como seres vivos, as mulheres têm direito de se manifestar de forma paralela à dos homens, não se poderá encontrar impecílios, no que diz respeito à capacidade de execução de tarefas e também quanto à autonomia em suas vidas, salvo tarefas de execução puramente braçal, que coloquem as mulheres em posição inferior à dos homens.É de fato notável a emancipação feminina no séc. XXI, porém, a verdadeira questão, acredito eu, não reside simplesmente na perda da feminilidade ou no medo da concorrência(por parte das mulheres e dos homens respectivamente), mas sim na capacidade da própria mulher de se portar de forma satisfatória diante de suas inúmeras "obrigações" quanto a vida familiar e, concomitantemente com isso, conseguir executar tarefas até então de atuação masculina com considerável sucesso, dado que a rotina doméstica é, de certa forma, massante e requer uma estrutura emocional forte na mulher.
Sendo assim, o que realmente pode se colocar como incentivo ou impecílio é a opinião da própria mulher quanto à vontade de se portar no mundo, exercendo concorrência para com os homens ou até mesmo colaboração com os mesmos, dadas possibilidades de atuação em conjunto.Talvez a verdadeira pergunta que permeie o pensamento feminino seja: Até onde posso ir sem prejudicar minha vida ou minha conduta como mulher?

Augusto Amato Neto disse...

Gostei das contribuições. A terceirização do papel feminino para uma funcionária ou professora é uma realidade comum.
Acredito que a postura diferente da mulher hoje não seja fruto apenas das divergências entre os gêneros feminino e masculino. Mas de uma transformação em um contexto cultural.
Entretanto, fica difícil deixar as divergência entre os gêneros de lado, se é esta divergência que leva a complementaridade numa relação homem e mulher.
No entendimento das semelhanças e diferenças se dá o surgimento do que chamamos da paixão e até do amor.
Até onde posso ir sem prejudicar minha vida ou minha conduta como homem?
Sim, é uma questão do indivíduo para consigo mesmo, seja homem ou mulher.
Obrigado pela visita!