sábado, 27 de fevereiro de 2010

Os cronistas e as mulheres

Um dos cronistas que mais gosto é o Fabrício Carpinejar. O esquisitão é capaz de descrever o amor como poucos fazem na pós-modernidade. Escreve sem perder a poesia ao destrinchar o mais humano dos comportamentos. Um dos seus sites chama-se Consultório Poético, em que responde a cartas de apaixonados e amantes com 15 minutos de verdade sem pena nem dó.

Entre seus últimos livros o Canalha!, que fala sobre o que seria o verdadeiro canalha e outras questões do homem contemporâneo nas crônicas que compõem a obra. O que me prendeu aos seus escritos foi o quanto suas palavras delineavam aquelas situações mais sutis da relação homem – mulher, cheias de importância e dignas de atenção. Talvez o maior (e melhor) efeito do Carpinejar seja o reconhecimento do leitor ao que acontece ali na sua casa toda hora e o fato de que muitas das suas análises soam verdadeiras.

Aliás, foi este livro Canalha! o responsável pelo meu último relacionamento. Ela me perguntou se conhecia o autor, respondi que não só conhecia, mas tinha o recém lançado livro. Do empréstimo ao início da relação foi rápido. Ele passou a ser a nossa linguagem, vivíamos à Carpinejar as coisas e as relações por aí. Acompanhavamos o Blog e o Twitter como pílulas ingeridas em doses durante o dia. A produtividade do autor é alta e havia sempre muito material novo. Acompanhavamos também a sua história de amor com a médica Cinthya Verri, era uma relação bem pública (e publicada) nos espaços dele e no Blog dela. Durante uma entrevista de Jô Soares com Carpinejar, o entrevistador interrompeu a conversa para elogiar a beleza da namorada e ele se saiu bem ao assumir que sabia que era feio.

A certa altura nos deparamos com uma mudança no conteúdo das crônicas: Carpinejar começou a escrever sobre certas divergências entre eles, a fazer analises de atitudes com significado que incomodavam a ele ou a ela, criticou besteiras ditas por uma amiga dela durante uma noite, analisou o reencontro dela com um ex-namorado que um dia foi seu melhor. Ela, revisando crônicas para um próximo livro dele, leu uma sobre uma transa dele com outra, anterior a ela. Transformou a ira em um Blog que descrevia requintes cruéis em como matá-lo. Começamos a estranhar a exposição excessiva dos problemas do casal e concluímos: eles estão em crise!

A certa altura mandei um e-mail ao Carpinejar contando sobre sua responsabilidade no meu relacionamento. Ele respondeu dizendo que sua mãe dizia que ele tinha vocação para padre e que a história de nossa aproximação entremeada por seus escritos renderia um outro livro. “Adoro ser responsável pela felicidade alheia”, concluiu ele.

Porém, comecei a notar que não era apenas o relacionamento do Carpinejar que estava em crise. Percebi que nossas expectativas e disponibilidades eram diferentes. Sofri, mas saquei que tinha ido até onde era possível para mim e que o que tinha era menos do que precisava neste momento de minha vida. Liguei, descrevi meus pensamentos e me afastei. Quase uma semana depois não resisti e mandei um e-mail de despedida a ela dizendo “Sinto e expresso. Digo e deixo de carregar comigo. Se falei no silêncio do início, não agüentaria ficar mudo no barulho do fim. Sinto que as palavras e as lágrimas levam você de mim.” No rodapé, coloquei uma observação sobre a dificuldade de enviar o e-mail: “Queria publicar no blog, mas exporia demais. Agora entendo o Carpinejar, talvez publicar no espaço público seja se expor menos, dependendo da situação. Apesar disso, espero nunca precisar apelar para o Blog, na tentativa de sustentar uma relação”.

Hoje pela manhã, fui pego de surpresa quando fui ler as crônicas do dia e da véspera ao encontrar o relato do rompimento. Carpinejar e Cinthya também não estão mais juntos. Em Excesso de Dom e Separação Criativa ele narra a desunião, que mais uma vez se casou perfeitamente com o que nós vivemos. Á Carpinejar pudemos viver também o nosso fim:

“Já observei casamentos desfeitos porque um falou para outro que acabou e não voltava mais. E nenhum dos dois cedeu e insistiu e perguntou de novo. Passaram a história inteira para provar o que ele ou ela desperdiçou e o dano irreparável de suas frases. Enterremos logo nossas maldades para velar as injúrias.

É só oferecer ao nosso par a mesma capacidade que temos de nos perdoar. Desapareceria metade dos problemas. Os inimigos são netos de nossas teimosias. O boicote é uma forma de educar pelo sacrifício. A pior forma. É ficar preocupado em honrar o castigo. É preparar uma vingança ao invés de se distanciar um pouco para entender o que gerou a discórdia.

Trata-se ainda de um sacrifício mútuo, os dois vão perder a possibilidade de criar uma intimidade maior e mais generosa. Aquele que atacou pedia ajuda. E atacou pois não sabia justamente pedir ajuda. Preocupados em nos defender, não alcançamos o apelo e retribuímos o inferno. A palavra engana. A palavra manda embora e o corpo pede um abraço.

Há de se procurar o gesto. O que me interessa é o gesto, o resto da palavra. A origem. Se aquilo foi feito para permanecer mais perto. Quando viajo para serra gaúcha, as estradas me ensinam a importância do que é torto. Elas seguem a natureza ardilosa dos morros, assustam com suas curvas, mas sempre me deixam na cidade em que nasci”.

No meu caso, o sacrifício mútuo do fim foi simbolizado no último presente: um par de lanças indígenas esculpidas em fibra de bananeira trazida por ela de uma viagem, que ela fez questão de explicar que tinham um pequeno detalhe que as diferenciavam e que uma ficaria pra mim e outra pra ela. O significado: a diferença era sutil entre as lanças e entre nós, mas o suficiente para acabarmos feridos. Não adiantaria mais qualquer ataque, pois se eu senti pela lança a dor do fim, ela também tinha a sua para estampar o seu sofrimento.

É meu caro Fabro, ficam para nós duas lições.

A primeira é que, realmente, apelar ao Blog não sustenta uma relação.

A segunda, mais importante, é que um cronista só deslancha quando amou verdadeiramente uma mulher que era apaixonada pelo escritor.

É possível que o homem por detrás do escritor seja mais difícil de acompanhar do que as crônicas publicadas e que apenas sugerem quem ele é. O fato é que elas nos deixaram o que nos é fascinante: a inspiração poética para uma nova safra de boas crônicas, o espaço para ceifar os melhores relatos de nossas novas experiências e a liberdade para plantar as sementes do porvir. Daí nascerá uma escrita diferente, única e que seria inexistente caso não tivéssemos vivido o amor com elas.

8 comentários:

Augusto Amato Neto disse...

PS: O Carpinejar leu e me enviou um e-mail comentando. Não vou publicá-lo pois é papo de cronista. Desculpem disseminar a curiosidade gratuita!

Eliana disse...

Mostra pra mamãe? Estou curiosa!!!! Sou mãe!!!

Rosa disse...

O Amor real , imaginável, momentâneo...pode escolher...rs
Uns nascem para ajudar, outros para serem ajudados.
Sustentar uma relação onde se apaixona pelo cronista, isso é real...quem cede ele ou ela...?!
Interessante a frase "a palavra manda embora e o corpo pede um abraço"...quantos agem assim...relação nenhuma sobrevive....carência, apenas uma carência.
A verdade é só uma.....A PALAVRA ENGANA...até quam a profere.....pois o coração esta gritando o oposto...
Abraços aos cronistas.....rs

Augusto Amato Neto disse...

Adorei seu comentário, Rosinha!
O AMOR É MESMO REPLETO DE CONTRADIÇÕES...
Gostei do abraço aos cronistas!!!

I disse...

O difícil numa relação é saber se "é cedo ou tarde demais pra dizer adeus, pra dizer que jamais..." Como saber se a relação já deu o que tinha que dar ou apenas está começando e você precisa aprender muito ainda, aprender a amar?

Augusto Amato Neto disse...

Pra responder essa sua questão, caro leitor de identidade desconhecida, cito o Carpinejar numa resposta de ontem a um leitor em seu Consultório Poético (http://tinyurl.com/ybml6hz para ler na íntegra):
"A gula impede o sabor: atacará o prato desordenado, encherá a boca com displicência, indiferente aos temperos. Recomendo calma. Não é o momento de decidir, mas de aceitar, abrir espaço e compreender o contexto. Escondemos as fraquezas na superioridade."
Sua pergunta: Como saber se a relação já deu o que tinha que dar ou apenas está começando e você precisa aprender muito ainda, aprender a amar?
A resposta: Em resumo, abrir espaço para se distanciar e entender se é o fim ou o recomeço. A reconciliação precisa sim de um único motivo, que o amor ainda exista e isso será possível de constatar na ausência da pessoa amada.

Indiara disse...

Me chamou a atenção isto: "Sofri, mas saquei que tinha ido até onde era possível para mim e que o que tinha era menos do que precisava neste momento de minha vida.". Aconteceu comigo. Terminamos.

Augusto Amato Neto disse...

"Talvez o fato de ainda ouvir coisas do tipo: 'você enche a boca pra falar dela'. Pena que encha a boca pra falar de um passado distante, cada vez mais passado, cada vez mais distante." AAN

Seja como for, o fim dói!