sábado, 17 de abril de 2010

Herança

“É, vida voa. Vai no tempo, vai. Ai, mas que saudade,

Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade e orgulho de seu filho ser igual seu pai,

Pois me beijaram a boca e me tornei poeta, mas tão habituado com o adverso,

Eu temo se um dia me machuca o verso, e o meu medo maior é o espelho se quebrar.”

Do saudoso sambista João Nogueira

Costumo dizer que os filhos demonstram aos pais o quanto eles juntaram os seus melhores e os seus piores. De repente, me vejo fazendo o que sempre critico no meu pai ou em minha mãe. Em um dado momento, ele ou ela percebe que não adiantou cobrar uma postura de mim que eles mesmos não foram capazes de sustentar. Posso ser grato pelas oportunidades que me deram, mas posso me revoltar com as coisas que não quiseram me dar.

Os pais que estimulam, incentivam e reconhecem seus filhos podem ser críticos, incompreensivos e ausentes. Daí que pais despertem sentimentos contraditórios nos filhos e, do mesmo modo, os filhos despertem sentimentos antagônicos nos pais. Neste palco, há espaço para conflitos nas questões de dependência e independência em ambas as direções – de pais para filhos e de filhos para os pais.

Não há liberdade de escolha. Os pais fazem os filhos, mas não têm o direito de escolhê-lo. Os filhos nascem sem fazer opção pela sua família. Toda esta problemática transparece em um costume que considero significativo em todas as famílias: a herança.

A herança costuma ser um benefício cujo efeito se assemelha ao do trabalho. Para tolerar aquele emprego mereço além do salário receber um plano de saúde, vale refeição e uma cesta básica. A herança é o bônus pago pelo ônus de pertencer àquela família. Até a ausência de herança é válida para este fim: tão azarado fui ao ser desta família que sequer me deixarão algum bem.

O inventário de bens é o instrumento de retaliação do ente que morreu. É o uso do poder do defunto, que faz suspense sobre quem receberá aquilo que ele foi capaz de acumular durante a vida. Não é atoa que a partilha, quando não foi definida em testamento, já foi tema de filme de drama, tragédia, comédia e até terror.

Herança boa é a que se ganha em vida. Aquele que um dia se vai faz questão de deixar o presente com você, com direito a explicação de sua história e oportunidade de agradecimento.

Tenho a felicidade de ter meus quatro avôs vivos e com saúde. A oportunidade de compartilhar as experiências de vida deles será minha maior herança. Por mais que conheça as histórias mais contadas, vivo a descobrir passagens e situações interessantes que eu não conhecia.

Já tive a experiência da perda com a Tia Joana, irmã de minha avó paterna, que nunca teve filhos e, por freqüentar assiduamente nossa família, se tornou minha terceira avó. Quando ela morreu, me deixou seu Fusca 1978, original com 50.000 quilômetros e cor vinho. Na época morava em São Paulo, o carro ficava parado em Mococa e estava se deteriorando. Resolvi vender a relíquia.

Duas heranças recentes, doadas em vida, me foram importantes. A primeira foi uma tartaruga de estanho que foi dada a minha avó Malvina por uma pessoa querida e que ela cedeu para minha coleção de tartarugas. Precisei restaurá-la de certas quedas de nossa infância, ela foi um dos objetos mais cobiçados como brinquedo na casa da vó por todos os dez netos e acabou ferida.

O segundo foi do último almoço de sábado feito pela mesma avó. Durante a refeição fui pegar um copo e achei uma relíquia. O copo verde comprido de plástico com meu nome gravado pelo meu avô. Tinha mais ou menos três anos de idade quando cada neto ganhou o seu, da marca TupperWare (aquela que deu nome a qualquer pote de plástico) e que vinha com uma tampa transparente.

A casa do meu avô Raul sempre vivia cheia. Eram cinco filhos com amigos e namorados, que depois viraram cônjuges e deram netos. Sem contar que o negócio da família era as famosas malas Zamarian e, por isso, sempre havia uma negociação na casa, seja com fornecedores ou clientes que eram recebidos com um café. Durante anos a fábrica de malas funcionou lá no porão da casa deles. Os copos foram pirografados para que as crianças só tomassem as coisas nos seus respectivos.

Quando comentei a surpresa de achar aquele copo no último almoço, minha avó disse para levá-lo embora e guardá-lo na minha casa como lembrança para não correr o risco de alguém dar um fim no objeto dessa história. O simples copo me remete as noites dormidas na casa deles, das leituras que minha avó fazia enquanto tomava o leite antes de dormir. Aliás, o copo de leite a noite é hábito transgeracional: meu avô toma todos os dias, minha mãe também. Preciso dizer que eu tomo? Aliás, agora o tomo na minha herança de vez em quando. E não é que fica mais gostoso? Obrigado, Vô Raul e Vó Ina.







Para meus primos da família Braga - Zamarian.

3 comentários:

Geise disse...

Augusto....

Adorei sua crônica...
Me fez lembrar das noites dormidas na casa da vó, do leitinho, das histórias contadas...que saudades!!!

Bjinhus

Augusto Amato Neto disse...

Geise,

Coisas simples que fazem a diferença e deixam saudades eternas. Feliz de quem viveu!

Obrigado pela visita frequente, mas hoje com comntário...

Beijos.

Rosa Maria disse...

Oi caro amigo Augusto.
Boa essa.......disse tudo em tão simples palavras.
Quem teve o privilégio de passar por este tempo tem é um tesouro......
Abraços.
Deus o Abençoe e boa semana