terça-feira, 18 de maio de 2010

No Caderno da Oficina

Foi convivendo uma semana com Fabrício Carpinejar que descobri que pensamento tem sotaque. Seu estilo provocativo de ensinar me permitiu ver de perto seu brilhantismo ao construir a crítica pela poética como cronista. Suas falas gaúchas ainda ressoam em meus pensamentos e aqui divido alguns destes momentos. Foi um encontro intenso de pessoas diferentes com um único objetivo: carpinejar a vida. Ter licença poética de sair um pouco da própria vida e vivenciar tanta coisa em tão pouco tempo, como disse a Tati. Minha versão de alguns breves momentos:

Primeiro Sapato

Carpina tinha pedido um voluntário para descrever uma lembrança da infância. Maria Antônia se ofereceu a contar sua experiência de criança, quando usava tranças e vestido xadrez. Aguardou ansiosamente a chegada de sua vez no pula-pula e quando saiu do brinquedo não achou seu par de sapatos. O Conga da Maria Antônia.

Neste momento imaginava que a loira descolada contava uma descoberta. O dia que ela sacou que a felicidade do pula-pula é a grande oportunidade na infância do cleptomaníaco.

Carpinejar: Você enxerga os detalhes?

Maria Antônia: Sim, estava de vestido xadrez e de trança no cabelo.

Carpinejar: Você consegue se ver entrando no pula-pula?

Maria Antônia: Consigo.

Foi quando Carpinejar perguntou:

C: Quem acreditou na lembrança dela? Quem aqui acha que a história é verdadeira?

A: Eu acreditei - disse com o braço ao alto.

C: Por que tu acredita?

A: Pelos detalhes que ela descreveu, pela rapidez com que ela foi respondendo os seus questionamentos de se ver na cena.

C: Quer dizer que tu acha que a ejaculação precoce com algumas preliminares é a relação sexual mais verdadeira? Ela disse que via a cena. Se era ela quem vivia essa situação, como ela poderia se ver brincando no pula-pula?

A (em pensamento): Ela é espectadora da própria infância.

Segundo Sapato

Com a máquina fotográfica dando sopa na mão, durante o curso, ligo e tiro o flash. Quando apertei o botão que capturou a imagem ele solta:

C: Tu sabia que é proibido tirar foto durante a aula?

A: É sério? – disse.

C: Não.

A: Ufa!

Terceiro Sapato

Na porta do B_arco (Centro Cultural Brasil Arte-Contemporânea), espirrando em meio aos fumantes para aproveitar suas companhias. Intervalo do curso, por volta de 21 horas, frio na cidade de São Paulo:

Augusto: É impressão minha ou hoje está mais frio do que ontem?

Carpinejar: É impressão sua (pausa), e está mais frio do que ontem (gargalhada).


Os relatos continuam numa próxima página deste caderno.
Para meus comparsas de Oficina, que viveram comigo Tantas Ternuras.

Um comentário:

Tatiana Telink disse...

Ai que bom isso Padeiro, faz mais, faz mais... parece até que eu tô revivendo os minutinhos preciosos da minha semana passada ao lado d'ocês!
Saudade de todos! Coloquei no meu blog um texto sobre a oficina. Vai lá ver depois. Um beijo! Tati