quinta-feira, 13 de maio de 2010

Suicídio Consumado

Este é o documento que anuncia minha morte, a morte do cronista. Morte matada, não morte morrida. Aquela que nos manda direto para o inferno. Cometerei o ato bárbaro do suicídio. Tentei empreender na lida do cronista, mas não tenho condição de continuar.

Como posso ser capaz de causar estranhamento com uma crônica sem ter um grande problema com isso? Se contasse a minha última transa no sábado, perderia todo o respeito das pessoas e de brinde uma briga com a família. Não vão me matar por ter feito, mas por ter contado. Chocaria um adolescente que acessa o meu blog. Abusaria da inconseqüência. Se não tenho paciência de ensinar o que é o bom-senso, não sou capaz de deixá-lo de lado.

Mordo de vontade de contar algumas passagens de psicólogo com meus pacientes. Não é sempre que criticam meu cabelo, o quadro que pintei, ou me proferem apelidos não tão agradáveis. Um bom cronista descreve a imagem completamente, transportando o leitor para a cena, fazendo isso quebraria o sigilo e cairia na falta de ética. Divulgar o atendimento me custaria a cassação do CRP.

Existem professores que pensam que alunos de psicologia gostam de falar sobre sexo. Que bobagem, Freud saturou o assunto. Alunos de psicologia gostam de falar de amor. E qualquer professor de psicologia gosta de falar sobre ética. Não posso mais falar de amor, não posso mais despir a namorada nas minhas palavras. Não quero! Amor só me será tema até o último ponto final deste texto. Acalmem-se alunos, nas aulas não vamos nos abster de tocar no assunto, mas na crônica não. A decisão já está tomada.

Não me compreende? Basta se colocar no meu lugar. Como tomarei partido de um lado da história se o meu papel é justamente mediar a relação das pessoas de maneira imparcial? Escrever crônica é ser partidário e rechear de exemplos o convencimento do leitor. Não posso ser prisioneiro do limite. Não é de ética que sobrevive a crônica. E também não é só de poética. A emoção desejada neste gênero é a emoção da surpresa pelo desdobramento. Não posso desdobrar o que nunca pude por a mão para dobrar.

Não posso, por exemplo, assumir que tenho grande dúvida sobre a existência do casamento. Acreditar no amor não é sinônimo de acreditar em casamento. Perderei todos os pacientes encaminhados pela Igreja se questionar o matrimônio e pior, perderei as pacientes adolescentes que as mães querem casar e bancam suas sessões para que isso aconteça.

Já que a morte é certa, devo confessar que usei a crônica para cutucar a ex-namorada. Assumir isso é a prova que estou disposto a lançar mão. Tudo bem que foi uma tentativa para preservar o amor, mas sei que não é assim que se faz crônica. Estão vendo como não é mesmo para mim? A melhor coisa que faço é por fim a vida do cronista. Crônica não é página arrancada do diário, não é caçamba de entulho. Crônica é literatura.

Perdi a medida, escorreguei do meio fio. A incerteza não é incômoda, incômodo é o desconforto. Antes que eles se multipliquem, me subtraio. Não é para lhe provocar sentimento de abandono, é para que não me expulse de suas leituras por vontade própria. Saio em nome da honra que ainda resta.

Devo pedir desculpas, um suicida eficiente escreve uma carta. Se ela explica a motivação, não cabe a mim responder. Sou categórico. Não adianta comentar, mandar e-mail ou telefonar. Aqui termina o que talvez nunca tenha sido. Não me questione leitor assíduo sobre esta decisão. Isso aqui já é também o testamento. Dou o direito a quem comentou o que publiquei de escolher o que guardar consigo. Só peço que não briguem.

Farei uso da sensação da morte se aproximando para fazer dois pedidos. O primeiro é que um de vocês se encarregue do funeral. Já me basta ter que tramar a morte, o ritual de velório e do enterro deixo para vocês. Não pensem que não está doendo em mim. O segundo é que providenciem a placa em bronze com o seguinte epitáfio: “Não será mais visto escrevendo em padarias”.







Terceiro material produzido na Oficina de Crônicas de Fabrício Carpinejar.
Dedicada aos grandes amigos revistos e abraçados nessa semana.

5 comentários:

Pri Sganzerla disse...

Amei, amei, amei!

Texto divertido, cheio de ironias e com altas dicas sobre o conceito de crônica - bom fruto da sua excelente digestão da oficina do mestre Carpinejar.

A partir da sua crônica percebi que eu não levo jeito mesmo pra isso! rsrsrsrs Já você, quer apenas confete com a publicação dessa carta suicida. ;-) Não me inclua dentre os que colaborarão com o velório ou encomendarão a lápide.

Adorei mesmo.

Beijos!

Rosa Maria disse...

Interessante..!!!
Bem cômico, e de uma riqueza profunda....
Amigo Augusto, ñ me peça para não chorar em seu velório....rs
bjinhos...

Douglas disse...

Oii Prof...que dizer ex prof..rsosss

adoreiiii..divertida!!!!

ABRAÇO...Iris

Indiara disse...

Admiro a habilidade do cronista!

Marcos disse...

Finado Augustinho Carrara
Foi um prazer observar seu comportamento crônico, que os anjos ou demônios desfrutem muito bem esse seu dom de ludibriar o próximo com simples palavras.
Tenho certeza que agora você é melhor do que antes, pois a morte faz as pessoas ficarem boas.
Descanse em paz meu amigo, sentirei saudades.
Obs.: Hoje coloquei um cálice de vinho e uma trufa de chocolate no seu túmulo, mas não resisti e tomei o vinho e devorei a trufa sem constrangimento,pois defunto não come mesmo.Mas a alma de ambos te encontrarão onde estiver

Markinhos Machado