domingo, 13 de junho de 2010

Efeitos do Defeito

Insistimos em acreditar que insinuação sexy com direito a cruzada de pernas, olhada fulminante ou piscada são maneiras de sugestão, enquanto o que seduz é a imperfeição. A grande arma de sedução é o defeito. Uma mania que soa como convite. Que apela para descobrir de perto, que incita a revirar o defeito por todos os lados e confiar na sua repetição.

Tenho um amigo que se apaixonou quando assistiu uma mulher fazendo as unhas no meio do expediente. Disse que ela era tão graciosa que podia usar a reunião para cuidar de sua aparência, já que aquilo não era abuso para quem tem um dia corrido de trabalhos e estudos. Não adiantou o questionamento do lugar apropriado. Para ele, continuar mantendo sua beleza encantadora não precisava de lugar.

A mania começa a soar como persistência. O defeito que se repete passa a ser entendido como correspondência. É de um sorriso no rosto, de uma coincidência de datas, gostos e músicas que precisa a aproximação. Qualquer tipo de esbarrada é confirmação da existência do desejo. Sempre por vias tortas, numa estrada cheia de curvas, com destino incerto.

Descobri outro dia que meu caderno era cobiçado. Me ver escrevendo suscitava nela a pergunta: o que será que ele tanto escreve naquele caderno? Cada hora passada na frente dela com os olhos voltados para o bloco de papel evidenciava o quanto ela esperava a mania. Queria espiar as palavras para ver o mundo com os meus olhos. Descobrir minhas reticências, despistar algumas vírgulas. Estar escrita no amanhã. Ninguém ousa reprimir a iniciativa do diário, mas não suporta saber da existência do segredo.

O amor recomeça quando se decide trocar de defeitos. Descobrir os novos ao invés de apontar os velhos. É dar bom dia para o defeito para terminar a noite no abraço de edredom. Somos parte da mania do outro. Brincamos com os efeitos do defeito. A obsessão de querer descobrir os novos defeitos para reencontrar as velhas qualidades.


2 comentários:

maichel disse...

interessante.
sabe?! acredito que através dos defeitos é que se descobre o que realmente são qualidades.
imagine se nos atentarmos para as qualidades e, tão somente para elas; quando nos depararmos com os defeitos, o sentimento que roubará a cena será a decepção.
através dos defeitos conhecemos a pessoa em sua essência, acredite, isso é sério pois, quando os defeitos não nos fazem desistir, não nos fazem desencantar, não nos fazem retificar o caminho e seguir o outro rumo, percebemos que as qualidades, mesmo que em menor número, são os pontos em que devemos nos focar, é onde reside a beleza, beleza essa interior; talvez não seja esse o pensamento corrente mas, para quem não se prende ao melancólico e retrógrado senso comum, é melhor pensar que através dos defeitos se revelam as qualidades, e, mesmo que sejam mil os defeitos e apenas uma qualidade, ainda existe naquele ser, no interior, mesmo que obscuro daquele ser, uma qualidade e que, através dela, essa única qualidade, muitas outras podem surgir; e a melhor forma de fazermos isso é observando os defeitos, sem julgá-los, sem reprimí-los; o interessante é saber que eles existem, sem se dar ao luxo de apontá-los ou julgar-se melhor, apenas observá-los para que o estalar inigualável de uma qualidade possa ter o brilho que merece diante dos nossos olhos.
defeitos todos temos, o único problema com eles é que a maioria das pessoas só consegue enxergar os alheios, não se preocupam com seus próprios.
penso que um defeito é a expressão avessa de uma qualidade mal trabalhada.

abraços augusto.

Aline Pandolfo disse...

E é um ciclo vicioso... Achar um defeito, gostar do defeito, se acostumar com o defeito...Achar outro defeito... hehehe E assim adiante... =) Fui em um palestra contigo, adorei as suas tiradinhas, e o seu blog se tornou cotidiano... Abçs e Parabéns!