segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Caixa de Isopor

Sou o funcionário público contratado para organizar minha rotina. No arranjo de meu cotidiano tenho uma parte que adora divisória cinza com margem preta e cheiro de repartição. Gosto de criar rotinas, procedimentos e burocracias nas minhas tarefas mais simples. Armei a vagem a Sampa, um bate e volta, e já tratei de me programar. Estou organizando uma exposição com as minhas pinturas, precisava recolher os quadros presenteados aos amigos. Liguei para eles durante a semana, antecipando a visita e programei uma passagem pelos programas de sempre. Prendo-me a confirmar se o que eu gostei e frequentei continua no mesmo lugar.

Acontece que estou com uma mania estranha: de carregar um isopor. Esta é a prova de vestibular para se tornar um tiozão. Aquele que se acostuma a andar com um isopor no carro tem condições de fazer Medicina na faculdade da meia idade. Um adolescente ou jovem também carrega o isopor cheio, mas apenas quando o lugar que ele vai não vende a cerveja. Já para um tiozão, o isopor é o ocupante no pé do passageiro de segunda a segunda. Fica implícito a capacidade de organização e a praticidade de tal hábito. Há sempre algo preparado para ser buscado ao menor sinal de vontade: uma maçã, um sanduíche, água e até cerveja, dependendo do dia da semana e do programa.

Munido de minha caixa térmica e dos passageiros, percorri os duzentos e setenta quilômetros que separam a cidade natal da capital. Esquema montado. Homem que é homem quando viaja monta esquema. A mulher vai ao lado, incumbida de pegar o trocado para pagar o pedágio. E claro, ocupa um posto parecido com o da aeromoça. Deu vontade, ela abre o isopor e esboça o sorriso oferecendo o pedido. Dentro do meu funcionalismo, sou o concursado que acha que a modernidade dá preguiça. Mudar o sistema é o terror do funcionário público. O Sem Parar é uma ilusão de liberdade. Você paga para não parar, mas se esquece de que a cobrança vai chegar.

Na entrada de São Paulo assustei com um conjunto de prédios que agora tampa a vista do hotel da marginal. Preocupado com as mudanças, resolvi conferir os passeios da lista. O sol se punha quando passei pela casa de samba Você Vai Se Quiser e a Graça Braga estava lá, no palco, como faz todos os sábados. Apenas neste dia da semana as portas se abrem pra feijoada com samba. De tanto querer achar as coisas no mesmo lugar, fui ao encontro do amigo no seu apartamento, sem atentar ao fato de que ele havia me avisado que o alugaria por um mês. Minha sorte foi que o inquilino não estava e não precisou fazer sala para um desconhecido. Acertei o destino em direção à casa da mãe dele e o papo foi longe para colocar as informações dos meses em dia.

Como encontrei boa parte do que procurava, decidi conhecer algo novo. Café da manhã de domingo na Galeria dos Pães. Uma mistura de padaria com galeria de arte. Sanduíches com nomes de pintores, comidas com aparência de obra prima. Busquei um quadro na casa da amiga quase irmã, matando a saudade na visita rápida. Para completar os programas de outrora, passei pela feira na hora da xepa. Não consegui me conter diante dos preços e da gritaria dos feirantes. Muito animada, Dona Marta bradava arrancando sorrisos:

- Vamos gastar o dinheiro do marido, porque senão ela gasta com as loiras no bar.

Nisso o moleque passou gritando:

- “Ói o ai” – vendendo réstias de alho.

Não resisti, enchi o isopor para a viagem de volta e para a semana inteira.


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