segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Interior

Foi-se o tempo em que o interior era o oposto da metrópole. Os dias se encarregaram de diminuir as distâncias. Adotamos a indiferença com as outras pessoas como regra e a pressa já não é mais uma exceção. O sol aponta e a insanidade toma conta do bom dia. Se no interior não saímos mais cedo prevendo o engarrafamento, quando saímos apostamos corrida para ver quem cumpre a maratona mais rápido. Buscar o pão na padaria, passar o café, acordar e trocar a criança, deixar o filho na escola, a mulher no trabalho e chegar a tempo na labuta.

E não é que a pressa é companheira até o fim do dia? Dá tempo de voltar para casa no almoço, mas contamos com este tempo para colocar uma prioridade: passar no banco, lavar uma roupa, terminar um relatório, fazer comida, ler o jornal do dia ou devolver o filme na locadora. O ritmo pulsante, que muitas vezes não permite a reflexão, vai aumentando gradativamente conforme chegamos ao final do ano.

No interior já se formam, em alguns horários, filas de carros nas esquinas. Nos sábados, é impraticável cruzar de automóvel o centro. Achar uma vaga em horário comercial durante a semana é ganhar na loteria, mas com o custo do bilhete. Uma moeda vai para a zona azul, que deveria ser chamada de zona vermelha. Todo abuso remete ao vermelho e pagar pra parar na rua é um estupro. Um dos poucos privilégios que ainda resta ao interior é não ter dia de rodízio. Muitas vezes diante de distâncias pequenas, não queremos nos sujeitar, um dia na semana, a ter a sensação de que o carro está na oficina mecânica.

A poluição da água de um rio não é mais diretamente proporcional à proximidade dos grandes centros urbanos. No interior também tem rio que cheira mal, que o peixe morto boia e que a garrafa pet faz natação. No interior também se sofre de falta de infraestrutura: enchente, pobreza, fome. O recapeamento das ruas custa a chegar à periferia. As varandas das casas antigas seguem vazias, parecem ter perdido a sua função. Poucos se atentam ao fato de que o octogenário que parte desta vida têm levado consigo certos comportamentos. Veja o hábito da refeição. Nossos supermercados descobriram que pagamos bem pela comida já pronta e abandonamos o ritual da preparação. Demora mais cozinhar, e talvez saia mais caro. “Filho, come na escola que eu como no trabalho”. Precisamos de mais tempo para o computador.

Quer na metrópole ou no interior, vive bem o que não deixa a sua própria bateria viciar. Os empecilhos vão rebaixando a disposição e é preciso muita carga pra enfrentar a rotina. Bateria viciada começa com uma parte descarregada e a energia termina mais cedo. Quem não consegue mais carregar totalmente a bateria, o que faz ao começar um novo dia? Antes era difícil achar o interior na metrópole, agora é difícil achar o interior no interior.

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