quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Águas passadas movem moinhos

Arte de Weberson Santiago

Se você prestar bem a atenção, verá que águas passadas movem moinhos. Afinal, a água percorre caminhos, evapora, condensa, cai na terra e move o que estiver na sua frente. Não escolhe entre empurrar os peixes e mover os moinhos ao invés de levar consigo montanhas com casas.

O mundo é mais catastrófico do que a gente gostaria que fosse. Parece difícil aceitar o quanto lidamos com o incontrolável e com o imprevisível. Dizer que era previsível é ignorar que o que não é cuidado fica à margem durante as mudanças bruscas. Não se pode prever aquilo que não foi verificado.

Eu já senti que os meus moinhos eram movidos por águas passadas e, o pior, já experimentei a sensação que as palavras de minha boca teriam o mesmo efeito de um tsunami. A voz de um fantasma que movia minha boca como um ventríloquo e cuja consequência seria a calamidade. Sem muito esforço me vi como o responsável pelo desastre.

Exigir que toda água que passe seja nova é puro egoísmo. É querer um guarda roupa do tamanho que nunca repita o visual, enquanto cuidar da imagem é estar sempre com o humor de quem está de saída e não com o humor de quem está atrasado.

E é durante a tragédia que o aperto do peito se junta à voz entalada na garganta e passa a corroer por dentro. Ao ser lançada como um raio, a verdade trás nuvens negras e carregadas. Estas vão se esvaindo ou se dissipando em chuva até que se aviste um primeiro pedaço do horizonte.

Ora! A água passada que move um moinho novamente não e a mesma água. Foi alterada pela experiência dos seus estados característicos. Quando no estado sólido, promove a sensação de frio na espinha e o contato é capaz congelar. No estado líquido vive a se derramar e a escorrer por aí. No estado gasoso, não aceita ficar por baixo.

Que caia a chuva que molha a terra, que penetra no solo e é puxada pelas raízes. Que sobe até as folhas e vai em direção ao sol e se faz atmosfera para os outros. Na estação das nuvens, desembarca o calor e embarca a mentira levando consigo o medo.

Aproveitei as águas passadas para lavar a alma e agora estou na espreita de que o vento traga novos ares.


Um comentário:

Eliana Zamarian Amato disse...

Nossa filho, vc esta cada dia melhor, rsrs. Nunca havia pensado sob esta ótica!!!