sexta-feira, 11 de março de 2011

A Construção e a Paciência











O projeto de 01/02/2010 e
o resultado em 01/01/2011







Tenho o hábito de enxergar a transformação assim que eu me deparo com algo abandonado. Gosto da reciclagem, acredito na reutilização, boto fé na boa vontade e não tenho dúvida de que, mesmo que seja árdua, a mudança vale a pena.

Quando me dispus a encontrar uma casa pra morar sozinho relatava aos corretores a necessidade de um mínimo de verde no imóvel. Ao menos um pedaço suficiente para que eu pudesse deitar e ver o céu.

Pensei que a procura tinha chegado ao fim quando encontrei o espaço ideal, seis cômodos espaçosos, fachada simpática de casa antiga e um pedaço de terra no quintal, sem nenhuma planta. Na primeira visita enxerguei um gramado, mas na primeira negociação com a dona acabei com enfado. Ela queria colocar cimento no pouco de terra que restava e eu, que enxergava a cama de grama como cômodo adicional, me recusei a fechar o contrato.

Foi então que encontrei aquela que se tornaria a minha primeira casa. O número de quartos e seus tamanhos eram ideais, mas o matagal que tomava conta do quintal me fez criar a urgência da assinatura. Havia sido mordido. Não por um inseto, mas pela imagem de um jardim em um sonho acordado. E quando o mosquito da criatividade me morde, enxergo apenas o produto final e não me importo com o trabalho da execução.

Aprendi que tudo o que se faz com as próprias mãos, custa mais barato e descobri que a desculpa do preço é o vício do preguiçoso. Mordido pela ideia, imaginei uma pérgola de eucalipto com uma bela trepadeira fazendo sombra para uma mesa em cima de seixos no chão. Não contente com a ideia, resolvi desenhar o meu primeiro projeto de construção.

O primeiro passo foi contratar um jardineiro para limpar a bagunça tão logo assinado o contrato. Debaixo do matagal havia um pé de acerola, três roseiras, algumas folhagens verdes e uma planta não identificada. Decidimos, o jardineiro e eu, não retirar a prova da história de quem ali morou. Ganhei da avó o tapete de grama e desde então regava meu colchonete para que virasse uma cama box.

Engana-se aquele que pensa que o interessante desta história é a ideia ter virado realidade. Não é o antes e o depois que me deixam cheio de orgulho, mas cada lição que eu tive durante a execução, que demorou exatamente um ano. O jardineiro não foi o único parceiro da empreitada. Para escavar um metro de chão e colocar de pé os seis troncos de sustentação, contei com a ajuda do amigo César. Quando o caminhão depositou as pedras de rio na calçada, aproveitei-me da mão-de-obra do amigo Coruja, que tendo furado comigo em um dia marcado, fez questão de ajudar no carregamento de dez carriolas até o quintal do fundo, tendo chegado para a tarefa com um fardo de cerveja para comemorarmos a conclusão.

Uma das coisas mais surpreendentes foi a tal planta não identificada. Logo após o plantio da grama, suas folhas começaram a secar. Diante da possível perda da planta, eu me abalei, achando que não era capaz de cuidar de um jardim. Insistia na água, mas as folhas não brotavam. E quando já havia desistido há vários meses daquela “batata” enfiada na terra, fui pego de surpresa com as folhas crescendo.

Ia passando do quarto do fundo para a casa quanto tomei um susto. De um dia para o outro subiu uma haste no meio das folhas. E no outro dia, ao acordar, me deparei com cinco lírios brancos de pétalas com o centro arroxeado. Compreendi a lição. Ela esperava o momento mais propício. E eu querendo que ela crescesse no meu ritmo. Uma planta esquisita me ensinando que a consideração e o cuidado não devem vir acompanhados da cobrança.

E é ali que eu passo boas noites em conversas sem fim, que eu vivo aqueles encontros de um farto churrasco, onde eu podo, planto e rego. É onde eu faço a transição entre as jornadas e o chegar em casa, onde eu rolo na grama e ralo o joelho, é o lugar que eu construí para me educar a ter paciência.


Um comentário:

Rosa Maria disse...

Amei...!
Quero muda deste Lírio...rs. Ppor favor arrume o Lirio amarelo...é lindo demais.
Ta ai...satisfação na natureza...senti firmeza na essencia de sua imaginação...bem criativa e real.
Trocando em miudos, caro Amigo Augusto... você foi fundo naquilo que todos buscam mas não se dão conta
Abraços