sábado, 26 de março de 2011

Crônicas de Padaria

Caros leitores do Observatório,

Inauguro a coluna semanal no Jornal DEMOCRATA cujo nome é Crônicas de Padaria. Todo sábado uma crônica fresquinha, simultaneamente publicada no Observatório. O charme da coluna é o rodapé, chamado Um Café e a Conta!, onde cada semana é publicado um aforismo de minha autoria.

Veiculado na região de São José do Rio Pardo/SP, o conteúdo do impresso pode ser conferido no site do DEMOCRATA: www.jornaldemocrata.com.br

Na primeira Crônica de Padaria, me apresento como cronista definindo o gênero literário. Publicado no Caderno Cultura DEMOCRATA, p. 3, 26/03/2011, Edição N° 1140

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A Crônica da Crônica

A crônica me fascina. A vontade de escrever foi aumentando à medida que visitava as mega livrarias e observava o espaço que as coletâneas ocupavam nas prateleiras. Foi quando descobri autores de diversas profissões se aventurando por este caminho, dentre os quais destaco As Crônicas de Niemeyer, do arquiteto Oscar, lançado às vésperas de seu 101º aniversário.

Na ocasião da festa de lançamento de seu livro, Niemeyer relatou um descontentamento com sua publicação. Não constam as datas das crônicas, que foram escritas para jornais e revistas nas últimas décadas. Considero legítima a reclamação do autor, a característica essencial deste gênero literário é descrever cronologicamente situações ou eventos - a palavra deriva do Latim Chronica, que significa relato de acontecimentos ocorridos no decorrer do tempo. A data remete ao contexto no qual foi escrita pelo autor. Niemeyer identifica que as crônicas mais antigas são pessimistas nas respostas, enquanto as mais recentes assumem uma posição de esperança. Entretanto, com a ausência de datas, o leitor não pode fazer uma análise do posicionamento do autor em diferentes momentos.

Fernando Sabino define a crônica como um comentário leve e breve sobre algum fato cotidiano. Seu tema pode ser poético ou irônico, mas o seu motivo, na maioria dos casos, é o fato miúdo: a notícia em quem ninguém prestou atenção, o acontecimento insignificante, a cena corriqueira. No relatar estas trivialidades, o cronista surpreende com a beleza, a comicidade, os aspectos singulares. O tom, como acentua Antonio Candido, é o de uma conversa aparentemente banal, que promove o efeito mais importante da crônica: proporcionar a familiaridade entre o escritor e aqueles que o leem.

De uma perspectiva histórica, ela apareceu pela primeira vez em 1799, no Jornal de Débats, publicado em Paris. A crônica é o único gênero literário produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa, nas páginas de uma revista ou de um jornal. Caracteriza-se por ocupar um espaço sempre igual e com a mesma localização, com frequência determinada.

A mistura entre jornalismo e literatura leva o cronista a um frequente impasse: para se constituir como texto artístico, o seu comentário sobre o cotidiano precisa apresentar uma linguagem que ultrapasse a da mera informação. Para tanto, usa-se uma linguagem mais pessoal. O estilo deve dar a impressão de naturalidade e a língua escrita aproximar-se da fala. Essa oscilação entre se colocar como autor e abrir espaço pra questões cotidianas, retirando-se do texto, é uma das características que mais me agradam na crônica.

Se crônica sofre da urgência do prazo de publicação, o autor pode se valer de sua frequência para amadurecer suas ideias. Se quiser rever, completar ou mudar basta outra nova crônica ou uma alteração naquela já escrita. Aliás, nas novas edições de seus livros, Rubem Braga fazia pequenas alterações em suas crônicas, sobretudo em alguns títulos. Braga foi o único brasileiro que conquistou consideração na literatura escrevendo somente crônicas.

No universo das inovações tecnológicas, as crônicas ganharam espaço no mundo virtual através dos blogs especializados no gênero, já que uma página arrancada de um diário não é, necessariamente, uma crônica. Na imensidão da internet, o blog pode ser comparado a um beco dentro de uma metrópole. Quando a crônica é eternizada na publicação impressa, aí sim ela atinge os mais diversos lugares e as mais variadas pessoas. Um bom cronista não se importa em ver sua crônica forrando o chão perto da parede a ser pintada ou até mesmo embrulhando meio quilo de carne. Espera, com isso, conquistar com as palavras o pintor e a cozinheira.

Sua extensão combina bem com o ritmo da pós-modernidade. Pode ser lida por inteiro em um pequeno intervalo entre atividades. Se o desafio do cronista é escrever no prazo proposto e, ao mesmo tempo, alcançar a linguagem literária de beleza singular, esta será minha missão no Democrata. Para finalizar, cabe realçar a importância da opinião dos leitores para o cronista. Convido você, caro leitor, para este diálogo sem pressa.


UM CAFÉ E A CONTA!

| Depois de aprender a usar a linguagem, é necessário aprender a usar o silêncio para se comunicar.



2 comentários:

lucia disse...

Ai que bacana Augusto!!!! Esta veia literária está contida na sua genética?? Rsss Parabéns, sucesso!!! Um café e a conta!!!! Abraços
Lucia Helena

Blog do MINDUIM disse...

Muito bem Augusto, gostei muito, parabéns, agora espero o próximo para pedir mais "Um café e a conta!!"