quarta-feira, 2 de março de 2011

QUANDO A FAUNA INVADE A CASA OU O SER HUMANO INVADE A FLORA

Arte de Weberson Santiago

Constatei que estou sendo vítima do Movimento dos Insetos Sem Terra. Em menos de quarenta e oito horas encontrei um escorpião amarelo, uma barata, duas espécies de lagarta e uma infinidade de mariposas no teto da garagem. Estou preocupado com as pacíficas lagartixas. Parecem estar entrando em extinção ou se recusam em entrar em movimentos de esquerda. Na política aristocrática da natureza a lei em vigor é aquela do mais forte sobre o mais fraco.

Há um ano fui vítima da mesma invasão e contratei a empresa de dedetização. O dedetizador é o oposto da polícia ambiental: qualquer coisa menor de trinta centímetros que ande deve ser exterminada. Com o serviço feito, retomei meu latifúndio. Vencendo o efeito do veneno, fui vítima de uma segunda tentativa de êxodo rural. Quando a fauna invade a casa, boa coisa não dá. Agora estou planejando a segunda chacina para impedir a reforma agrária da minha própria moradia.

Se o inseto se dá o direito de explorar o mundo do concreto, o ser humano se mete a experimentar o meio do mato. É o mundo dos descontentes na busca do equilíbrio, partindo da manutenção da própria sobrevivência.

Quando o ser humano invade a flora, boa coisa não dá. Precisava de uma cômoda no sábado e fui à busca de um móvel usado. Achei na cidade vizinha, onde mora a namorada. Porém, a loja fechava às três da tarde e tive de buscar o móvel mais cedo. Teria duas horas até que ela saísse do trabalho e estava com a cômoda ocupando o banco traseiro e o porta-malas. Resolvi ir até a chácara de um amigo para esperar dar a hora.

Enquanto esperava o tempo passar na conversa, começou a cair o maior pé d’água. Quando decido partir de volta para a cidade, vem o medo do atolamento. O desafio era uma baixada. Aproveitar o embalo da decida para tentar dar conta da subida. E nos três metros finais, sim, a roda encravou. O carro, a cômoda e eu em meio ao lamaçal. E a chuva sem sinal de trégua.

Ao lado de onde atolei havia duas casinhas brancas ou, se preferirem, duas mocoquinhas. Na janela de uma delas um senhor de cinquenta anos e, na porta, um menino de onze anos. Quando contei do atolamento, o mais velho disse:

- Acontece muito aqui, mas você é o primeiro a atolar nesta subida. Ela é nova, vão derrubar essas casas pra criar loteamento. Nós vamos ter que alugar outra por aqui na região. Se teu carro tiver parado lá embaixo, só com o guincho.

Tremendo com a possibilidade de voltar pra casa sem carro e sem cômoda, avisei que o atolamento se dera mais pra cima. Me ensinaram que fácil é desatolar fusca porque tem tração traseira. Minha esperança foi sendo renovada na tranquilidade e experiência da dupla. A estratégia era colocar pedras na frente da roda dianteira e ir subindo o carro de metro em metro. E deu certo.

- Ajudamos gente atolada toda semana, ontem mesmo atolou um praquele lado – explicaram os especialistas.

Em pleno sábado à tarde, sair na chuva para ajudar alguém com necessidade não é empreita para qualquer um. Com lama dos pés à cabeça, constatei que e aventura era novidade apenas para mim.

Quando o carro arrancou em terra firme coloquei a cabeça pra fora do carro e gritei:

- Eu volto para agradecer, pode esperar. Mas eu só venho quando estiver aquele sol.

Pensando bem, quando o ser humano invade a fauna e a flora, boa coisa pode dar.


Um comentário:

Tatiana Telink disse...

Augusto, que delícia te ler assim confabulando ecologia! Amei. Mas você tem que voltar lá hein? Para tomar um café com a dupla. Com certeza que eles tem mais para te ensinar! Beijo de saudade! Tati