sábado, 16 de abril de 2011

Domingo-Feira

Arte de Weberson Santiago



Domingo definitivamente é dia da feira. Qualquer cidade que se preze tem feira aos domingos. Um dia a feira de domingo foi tão importante que deu nome a todos os outros dias da semana, como se fossem a mera repetição deste evento semanário.

A feira é descendente do escambo, a famosa troca de mercadorias que foi forma dominante de comércio nalgum lugar de nossa história. Se você quer realmente conhecer uma cidade, conheça a sua feira, ela dará a ficha completa: alimentos típicos, formas de preparo, pessoas e hábitos, poder aquisitivo e distribuição de renda e uma oportunidade única de conversar e interagir.

O comum entre as feiras de domingo é que começam cedo, antes do sol raiar, mas os melhores preços são os do final, geralmente pouco depois do meio dia, o que é conhecido no Brasil como hora da xepa. No sul é chamado de guimba.

A feira é como o samba, tem o dom de agregar pessoas de todas as classes sociais. As crianças contam moedas, os adultos choram o desconto. Quem resiste ao produto trazido direto do produtor, recém-colhido e fresco?

Costumava frequentar a feira da Rua João Guimarães Rosa, travessa da Consolação e da Augusta, a um quarteirão do apartamento que morava em São Paulo. Aproveitava o Minhocão interditado para pedestres e ciclistas pra dar uma volta e ia à feira. O bacalhau fresco era uma das opções que mais me agradava. Há uma semelhança entre o trânsito das ruas e o das feiras em São Paulo: a concorrência entre carrinhos é grande, e a pressa é companheira até na hora das compras. Os feirantes gritam para os fregueses, numa espécie de buzinaço para atrair clientes. Alguns até se posicionam a frente da barraca oferecendo degustação seguida de um “não vai levar mesmo?”.

Também muito frequentadas, as feiras do interior tem produtores que vendem seus cultivos apenas aos domingos. Não se houve gritos dos feirantes como em Sampa, apenas o burburinho das vendas e conversas. A comida típica é uma das partes mais interessantes de qualquer feira. Uma vez assisti a uma senhora montando as pamonhas com queijo e cozinhando na hora e fiquei até agradecido em ficar na fila. Vi a feitura antes de trazê-la pra casa. É impossível sair com poucas sacolas, mesmo com quase nenhum dinheiro.

O pastel é um clássico da feira, geralmente cada um tem a sua barraca preferida. É tão reverenciado pelos visitantes que é possível encontrar alguém comendo um as sete da matina, com o toque especial do molho vinagrete ou da pimenta. Que o diga a Dona Penha, que todo domingo na Avenida Perimetral, em São José do Rio Pardo, recebe os recém-saídos da balada e mais aqueles que começam o domingo no pastel enquanto fazem a feira da semana. Também vou à da Rua Pernambuco, em Mococa, quando não passo nas duas.

Engana-se quem pensa que apenas comida é vendida na feira. Quem não se importa com a pirataria volta pra casa com os bolsos repletos de filmes inéditos, sacolas de roupas, tênis e sapatos. Pode-se escolher mudas das mais diversas, galinhas vivas, apetrechos de cozinha, brinquedos e até pen drive e MP3 player.

Indico que procure a mais próxima e a frequente aos domingos. A feira é a boutique do alimento de melhor qualidade. É o desfile de moda ao contrário em que desfilamos para observar o hortifrutigranjeiro. É o shopping center cuja praça de alimentação tem cara e gosto de interior. A diversidade de oportunidades é tanta que tem quem entre solteiro e saia casado da feira.

Uma dica: percorra todas as barracas até última e faça as compras na volta, assim não corre o risco de achar mais barato ou de melhor qualidade depois que já comprou.

UM CAFÉ E A CONTA!

| O banana é aquele que se eximiu da responsabilidade na hora de fazer e atribuiu o erro a quem fez. A banana com casca não deixa de ser uma banana.


Publicado no Jornal Democrata

Caderno Cultura, p. 3, 16/04/2011, Edição N° 1143.


2 comentários:

Nó tinhas? disse...

Seguindo a feira a segunda freira fere a fera a segundos antes da segunda-feira...

Markinhos Machado

POOL disse...

"É o shopping center cuja praça de alimentação tem cara e gosto de interior"