domingo, 21 de agosto de 2011

PREPARO O PACOTE PARA ELA RASGAR O EMBRULHO

Arte de Weberson Santiago



Eu sou pidão. Quando enxergo uma data especial no calendário começo a dar indícios do que eu quero ganhar.

Deixo propositadamente o vidro de perfume vazio fora do guarda-roupa. Aponto o tipo de roupa que me agrada na vitrine quando passo de carro na frente da loja. Mostro o lançamento de tecnologia que resolveria todos os meus problemas na tela do computador.

Esperando a comemoração, fico feito uma criança imaginando o presente que vou ganhar. Eu acho que toda data especial pede uma lista pro papai noel. A Natália dá a maior atenção, escuta com o coração todas as minhas vontades, mas às vezes ignora todas elas e me surpreende com outro presente. Com sua espontaneidade consegue me agradar mais, pois foge as expectativas e me ganha com a surpresa.

Para ganhar presentes a Natália é o oposto. Conta os dias na espera da data importante e gosta de planejar algo especial, mas não me dá sinais do que gostaria de ganhar. Eu vou recolhendo pistas. Tento investigar seu gosto sem dar na cara a intenção das perguntas.

Sou exagerado para presentear. Gosto de oferecer mais de uma coisa, de montar um kit de mimos em que sempre exista algo feito por mim, nem que seja o cartão. Faço esforço para ser inusitado, diferente.

Quero que ela veja no exagero o quanto me sinto privilegiado pelo nosso amor. Amar é sentir que o que acontece na sua relação é único, e que ninguém será capaz de sentir o mesmo, de fazer o mesmo e de viver o mesmo.

Para conseguir este efeito, começo a planejar com antecedência. Vou comprando cada presente e guardando para o grande dia. Me recuso a pedir alguma dica para as amigas dela. Não quero que ninguém me tire o gosto de escolher o que dar, nem quero correr o risco da notícia do presente vazar. A Natália não. Mais da metade das pessoas que trabalham com ela formam a equipe com quem ela divide a responsabilidade e as tarefas da preparação. Já no primeiro ano ela também pegou a mania de personalizar o presente e confessou estar há mais de dois meses preparando o próximo, o aniversário do nosso encontro.

Para esta data, resolvi emparedar a minha amada. Não, eu não decidi coloca-la na parede para nenhum inquérito. Fiz uma aquarela da Natália para lhe dar de presente. Tenho em nossa sala um autorretrato e resolvi presenteá-la com uma imagem dela feita por mim. Esperando que faça par na parede como faz par no meu coração, na minha memória e nos meus sonhos de futuro.

Tivemos de fazer um pacto para manter a surpresa. Enquanto eu pintava, ela não poderia aparecer. Durante a escrita dos versos do cartão, Natália estava terminando o meu presente. Reinava o mistério. Ai de mim se espiasse o que ela fazia. Fui recomendado, ameaçado, coagido. A curiosidade só fez aumentar a minha criatividade na forma de poesia:

Quando estávamos sozinhos, éramos a escassez do que poderíamos ser.

Quando nos conhecemos, passamos a ser metade.

Quando estamos distantes, não somos nada do que queremos ser.

Quando deixamos de ser um do outro, nos tornamos menos do que sempre fomos.

Quando estamos juntos, somos o que mais queremos ser.

Quando somos dois, nos tornamos um.

Antes de te conhecer, eu era um.

Depois que nós dois nos tornamos um, passamos a ser três.

Enquanto estamos os três, somos uma.

No futuro seremos quatro, mas ainda assim seremos uma.

A nossa família é uma matemática sem lógica.

A soma dos nossos carinhos resulta na multiplicação do nosso amor.

Nesse aniversário do nosso encontro, dei a aquarela-retrato, um perfume que ela adora em uma nova versão que eu gostei e um colar que ela experimentou na feirinha e eu comprei escondido.

Amar é passar semanas fazendo o pacote para vê-la resgar o embrulho em um segundo e sorrir ao encontrar o conteúdo.

UM CAFÉ E A CONTA!

| Melhor que dar presente em data especial é ser presente a cada dia.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria

Caderno Cultura, p. 3, 20/08/2011, Edição Nº 1161.


2 comentários:

Aneline disse...

Ah, que lindo Augusto!
Eu também sou "boba" assim, me recuso a dar um presente "seco".
Se não tiver um algo a mais elaborado por minhas próprias mãos, sinto que o presente foi vazio.
Incontestável é que para a mulher, melhor que presente é a presença.

Tatiana Telink disse...

Lindo, lindo!
Você bem que podia lançar um livro só disso Padeiro: como ser Homem nos dias de hoje e ainda arrancar suspiros de uma moça. Palmas para você e para Natália - que também merece elogios porque o amor é sempre uma mão de duas vias! Beijos, Tati