sábado, 12 de maio de 2012

A Lembrancinha da Viagem

Arte de Weberson Santiago



Fui dar uma aula de pós-graduação em São Paulo e descobri que não sei mais ser sozinho. Saí numa sexta-feira de manhã rumo à capital e, à medida que eu me distanciava do meu lar, um sentimento de ausência me ocupou o peito.

Já na lanchonete do posto que eu sempre paro pra tomar um café, lembrei que a Anelise adora o leite com chocolate que fazem por lá. Continuando na estrada, por vezes minha mão procurava a perna macia da Natália para descansar da aspereza do volante, mas encontrava o vazio.

Para consolar o sentimento, marquei com os amigos que não via há tempos alguns encontros antes e depois da aula, que aconteceu na noite daquele dia. No dia seguinte, depois de um bom banho, fui pra Galeria dos Pães. É uma padaria gigante onde os sanduíches recebem o nome de grandes pintores como Van Gogh, Da Vinci, Rodin, Salvador Dali e por aí vai.

Foi inevitável pensar que a Natália adora comer o Portinari, pão francês com queijo branco, tomate e orégano, mas não estava ali para degustar seu preferido. Foi então que percebi que eu não sei mais ser sozinho, funciono somente com ou outros dois terços, a Natália e Anelise. A saudade ganha cara de preocupação. A carência só pode ser disfarçada por meio de alguma compensação. Ao terminar o café da manhã, parti pro paraíso de pães e doces pra escolher um quitute para trazer para as duas. Era o que eu podia fazer.

O Mateus, 19 anos, havia conhecido a Carol, 17, há dois meses. Ficaram naquele passo a passo de aproximação, em que se buscam coincidências de gostos e datas, com direito a frases de dupla interpretação nas suas páginas do Facebook. Depois passaram a trocar mensagens diárias por SMS, até que marcaram um encontro. E depois dos primeiros beijos estavam os dois apaixonados. Os pais de Mateus estranharam a motivação triplicada, enquanto a mãe da Carol estava notando ela avoada.

Acontece que o Mateus tinha marcado uma viagem pelas cidades históricas de Minas Gerais com seus amigos, o que interrompeu o curso do seu envolvimento amoroso. O amor sempre entra na agenda sem planejamento, ao contrário das viagens com os amigos.

Enquanto descobria as igrejas de Ouro Preto, passeava pela praça de Tiradentes, apreciava os artesanatos de Mariana e conhecia os doze profetas de Aleijadinho em Congonhas do Campo, os seus pensamentos vagavam em busca da Carol.

Em cada lugar que passou, comprou um presente para a amada. Miniatura dos profetas em pedra sabão, tapete de tear manual pra ela colocar no quarto, pedras retiradas das grutas e outras coisas até encher a sua mochila. Quando ele voltou, a Carol ficou surpresa com a quantidade de mimos que recebeu, mas ouviu feliz a história de cada coisa que tirava da sacola.

Quando nós não podemos levar quem amamos até um lugar, roubamos um pedaço do lugar e levamos a quem amamos. O presente de viagem é uma evidência que mostra a nossa dependência. E entre todos os tipos de dependência que existem, prefiro a que surge do amor. Como toda dependência tem um pouco de loucura, justificar racionalmente o incômodo de estar sozinho soa como fragilidade. Uma loucura chamada insuficiência, que se torna saudável quando começa em uma falta percebida e termina em um sorriso diante das lembranças trazidas.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Demonstre a saudade quando ainda conta com a presença. Diante da ausência, é preciso ser professor da saudade e ensiná-la a se contentar apenas com a lembrança.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 12/05/2012, Edição Nº 1199. 

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