sábado, 10 de novembro de 2012

Educar é Desaprender

Arte de Weberson Santiago


Educar uma criança sempre é um desafio. Precisamos dedicar tempo para ensinar, corrigir, mostrar como se faz, explicar o que não se deve fazer na esperança que a lição seja entendida e que o comportamento futuro seja adequado.

A Anelise é uma criança que conquista facilmente a simpatia de quem a conhece. Sua espontaneidade é envolvente, suas percepções contadas são interessantes para uma menina de quatro anos. Apesar de não passar indiferente em qualquer ambiente, andei preocupado com o fato dela fugir de cumprimentar as pessoas quando nós chegamos em algum lugar.

Preocupado com a questão, resolvi recorrer a minha tia Egle. Me lembrava que ela usava um procedimento interessante quando a minha prima Ana Helena era criança. Ela se destacava por cumprimentar todas as pessoas quando chegava em um aniversário ou reunião de família. Sabia que a minha tia teria o passo a passo para que eu pudesse ensinar este novo comportamento à pequena.

Como eu já desconfiava, ela me disse que o maior erro é forçar a aproximação, empurrar a criança para beijar o parente. Forçar a aproximação pode incitar aquele comportamento de esconder atrás do pai ou da mãe, de grudar na perna feito um macaquinho. Ela explicou que adultos estranhos, mesmo que em meio a conhecidos, parecem ameaçadores para a criança. Pode ser pior coagir do que não cumprimentar. Quando se obriga, corre-se o risco dela explicar porque não quer dar um beijo na tia Cacilda e gerar aquele tipo de constrangimento:

Vai, Anelise, dá um beijo na tia Cacilda!

— Eu não quero, ela tem bigode e parece uma bruxa...

O procedimento bem sucedido da tia Egle começava dentro de casa. Ela explicava pra Ana Helena aonde eles iriam e quem estaria lá. Especificava os convidados da festa, citava seus nomes e dizia que teria mais algumas pessoas que ela não conhecia, mas que eram amigos dos conhecidos. No percurso de carro, relembrava a Ana Helena de cumprimentar cada um dos presentes porque eles ficariam felizes com a sua educação.

A Natália e eu registramos todos os detalhes e colocamos o plano em prática. E não é que funcionou? A Anelise deixou de se retrair e passou a saudar as pessoas quando chegamos nalgum lugar. Animado, voltei para contar o resultado para minha tia.

Ela ficou satisfeita com os primeiros passos, mas, como boa professora, resolveu contar o que aconteceu em uma determinada ocasião. Sua família chegava a uma festa acompanhada dos meus avós. Na porta da casa estava sentado um morador de rua conhecido na cidade. Minha prima Ana Helena não hesitou em pôr em prática o costume de sempre. Deu a mão ao pedinte para lhe cumprimentar. Minha avó já queria interceder e impedir o contato quando minha tia pediu que ela deixasse. E a Ana Helena tascou um beijo no rosto do mendigo.

Ela disse que deixou para me contar esta parte de sua experiência depois que eu acreditasse e testasse a técnica que ela me ensinou, pois só assim ela poderia funcionar. A segunda parte da lição consistia em entender que eu não deveria desdizer uma regra que eu mesmo criara, mesmo numa situação difícil como aquela que aconteceu com a minha prima. “Foi só levar ela pra lavar a mão depois”, contou.

Para educar é preciso ser coerente naquilo que anunciamos e naquilo que fazemos. A criança não aceita exceções que partam do adulto que a ensinou como deve fazer. Ao descumprir a regra, jogamos fora todo o esforço de proporcionar a aprendizagem.

É quando a gente acha que está ensinando que descobrimos quem tomou a lição. Educar é desaprender o que a gente acha que sabe para ensinar o que a gente ainda não aprendeu.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Desaprender é tão importante quanto estar disposto aprender. Há quem passe uma vida achando que sabe.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 3, 10/11/2012, Edição Nº 1225. 

Um comentário:

Rosa Maria disse...

Muito boa...
Realmente se deixar aprender é muito bon! Se percebermos aprendemos todos os dias...
Saudades de todos...
Bjos Na Natalia e Anelise.