sábado, 2 de março de 2013

O Colecionador de Chapéus

Arte de Augusto Amato Neto




Gustavo, 42 anos, é gerente administrativo de uma empresa. Casado com Tatiana, 39, há 18 anos. O casal tem dois filhos. Luciana, de 15 anos, e Vítor, de 6.

Há dois anos, Gustavo chegou em casa após o expediente de trabalho carregando uma caixa. Curiosa, Tatiana questionou o conteúdo. “Comprei um chapéu Panamá, igual ao do Tom Jobim”, disse. Ela gostou da novidade, sempre achou um charme homem de chapéu.

Na semana seguinte, Gustavo trouxe para casa uma sacola. Tatiana encontrou-a na sala quando chegava com os filhos. Entreabriu a boca do saco plástico e encontrou outro chapéu, diferente do primeiro. Achou estranho o marido repetindo a compra sem sequer ter usado o outro. Gustavo costumava levar a esposa quando saia para comprar roupas e consultava sua opinião a cada troca no provador. Ficou encafifada com a independência repentina, mas acabou esquecendo a atitude incomum do marido.

Passados dez dias, a família toda passeava num shopping. Passando em frente a uma vitrine, Gustavo avisou que iria entrar na loja. Foi direto à prateleira de chapéus e começou a analisar os modelos. Escolheu um exemplar de estampa xadrez pequena, sóbrio. Tatiana ficou sem graça de questionar a compra na frente das vendedoras e dos clientes. Saindo da loja, ela não se conteve:

— Guto, que mania é essa agora de ficar comprando chapéus? Já levou três para casa!

— Não posso mais comprar o que eu quero? – retrucou.

— Só não estou entendendo o motivo da coleção. Você compra o chapéu mas não o usa. Semana passada, fomos no churrasco na casa do Arthur e você não usou o chapéu. No dia seguinte, fomos ao clube e você também não usou.

Ele se calou, não apresentou um motivo sequer. Não justificou as aquisições. As compras continuaram a se repetir. Em um ano, Gustavo juntou dezoito chapéus. Tatiana questionou cada uma das compras. E ele sempre devolveu respostas evasivas. Ficou preocupada, chegou a pensar que o marido estava ficando doido. Consultou um psiquiatra para investigar a possibilidade de Gustavo estar com TOC, Transtorno Obsessivo-Compulsivo, mas ele não se enquadrava no transtorno, já que sua mania se resumia a colecionar chapéus sem usá-los, sem prejuízo algum nas demais atividades.

No fim da tarde de uma quarta-feira, Gustavo e Tatiana receberam uma ligação dos pais de Tatiana pedindo que eles fossem até lá para uma conversa urgente. Preocupados, deixaram o que faziam em casa e foram ao encontro do casal. Sebastião, o pai de Tatiana, descobriu naquele dia que estava com câncer de próstata. Seria operado ainda naquela semana e depois passaria por sessões de quimioterapia.
Após a cirurgia, quando Sebastião havia tido alta para o quarto, Gustavo e Tatiana se dirigiram ao hospital para uma visita. Foi quando Gustavo desceu do carro, abriu o porta-malas e retirou uma caixa.

— O que é isso, Guto? – questionou surpresa.

— Você vai ver.

Entraram no hospital e foram em direção ao quarto onde Sebastião se recuperava. Entregou a caixa ao sogro. Era o primeiro chapéu que Gustavo havia comprado, entregue para que ele usasse quando o seu cabelo caísse após a quimioterapia.

Ao assistir a cena, Tatiana suspeitou entender, ainda que vagamente, o motivo da coleção. Saindo de lá, Gustavo lhe explicou que a palavra câncer era proibida na casa de seus pais. Quando a doença foi descoberta e divulgada, os motivos do seu aparecimento eram pouco claros. Evitar falar o nome da doença, naquela época, era tentar que ela passasse longe dos entes queridos. Ouvia seus pais se referindo ao câncer como “aquilo” ou “a coisa”.

Gustavo percebeu que deixar de falar não evitava um câncer ao observar a perda de alguns amigos e colegas. Passou a se preocupar com a doença e se deparou com sua origem silenciosa e imprevisível. Não conseguia falar sobre o assunto com a esposa, tão forte era a regra que vigorou na sua infância. Foi aí que decidiu colecionar chapéus. Se ele viesse a descobrir uma neoplasia em seu corpo, quando enfrentasse o tratamento, queria ter uma coleção de chapéus para usar a cada dia, uma tentativa de manter viva a esperança.

Se fosse agraciado de não passar por um câncer, entregaria os chapéus para os que tivessem de enfrentar a doença. Não escolheria o doente, poderiam ser pessoas que ama ou até um desconhecido que cruzasse seus caminhos e ele soubesse que lutava pela vida.

A partir do dia que descobriu isso, Tatiana começou a colecionar lenços sem usá-los. Passaram, os dois, a proteger a cabeça e a fazer um carinho no cocuruto dos bravos que enfrentam um câncer.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| O melhor analgésico é se sentir cuidado.



Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 02/03/2013, Edição Nº 1241. 

3 comentários:

Maka disse...

Eu, particularmente, coleciono muitos chapéus.

Mariane Herédia disse...

Augusto e sua facilidade de me deixar com os olhos marejados.

Bruno Mello disse...

Boa noite. Tenho um. Chapeu que estqva em minha familia a muitos anos sem uso algum. Um modelo rarissimo da cury em pelo de lebre como hj trabalho em uma loja virtual de chapeu estou tentando vende-lo. Ele esta na loja www.zedochapeu.com.br se interessar estamos a disposicao para negociar.