sábado, 14 de dezembro de 2013

Quando o Forro Se Torna Piso

Arte de Weberson Santiago


Quando eu era criança tinha a mania de deitar no chão e imaginar como seria a vida de ponta cabeça. Passava um bom tempo imaginando como seria andar no teto.

O cuidado para não pisar na lâmpada. A viga no meio da sala seria um obstáculo a ser pulado se caminhássemos no forro, e a luminária seria como uma mesinha com tampo de luz.

Hoje eu entendo que ficar imaginando a casa de ponta cabeça era um exercício de alternar meu ponto de vista sobre a vida.

Ao caminhar no teto em pensamento, me observava fazendo algo. Penso no quão importante é se  observar na vida: como nos comportamos nas situações mais desafiadoras? Como nos relacionamos com as pessoas a nossa volta? Quais foram os sentimentos nas condições vividas?

O autoconhecimento só é possível com uma porção de distanciamento. Ver de fora.

A outra condição importante é se colocar no lugar do outro. O exercício de pensar em como se sente, quem convive com a gente, nos torna capazes de evitar atitudes desnecessárias e contraproducentes.

Exemplifico. Alguém que convive comigo ficou envolvido em um trabalho esperando um resultado que não veio, e ficou com uma baita raiva de ter feito tudo em vão e revoltado com todos os que estiveram envolvidos no resultado negativo.

Se eu fizer o exercício de me colocar no lugar dele, saberei entender seu sentimento diante da frustração. Não irei contra aquilo que ele diz ou faz com argumentos, tentando convencê-lo que a vida tem dessas coisas. Muito menos irei cobrá-lo de qualquer coisa neste momento, ainda que ele tenha prometido fazer algo pra mim há um bom tempo. Eu sei que o sentimento dele vai comprometer nossa comunicação e, talvez, a nossa relação.

Autocontrole é analisar as contingências antes de se comportar, ao invés de pensar depois de já tê-lo feito.

Saiba experimentar o ponto de vista do outro. E saiba que isto não significa assumir responsabilidades do outro ou fazer as coisas pelo outro. É experimentar as lentes dos óculos do parceiro para entender o que ele vive e saber como lidar com ele.

E de uma coisa eu não tenho dúvida. A melhor posição para fazer tudo isso é deitado no chão, olhando para cima.

Deite no chão da sala e olhe para o teto. Deite no chão do quintal e observe as estrelas. Deite na grama e veja as nuvens.

Se você não se permitir este tempo, a hora que você deitar na cama e encaixar sua cabeça no travesseiro, um excesso de pensamentos e sentimentos irão invadir o espaço reservado para o seu sono.

Reserve um tempo em sua rotina para andar no forro da sua casa. Abra uma brecha na agenda para deitar no chão. Tome distância da sua própria vida em pensamento. A hora que seus pés tocarem o chão novamente você estará muito mais preparado para agir.


UM CAFÉ E A CONTA!
| Saiba vestir o figurino das pessoas que convivem com você para saber onde a roupa aperta e onde tem espaço sobrando.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 14/12/2013, Edição Nº 1280. 

3 comentários:

Anônimo disse...

simples, complexo e tão verdadeiro...

Ana Paula disse...

simples, complexo e tão verdadeiro...

Helber Ferreira disse...

Muito bom o texto.