sábado, 12 de abril de 2014

Casamento Não é Para a Vida Inteira

Arte de Weberson Santiago



Desconfio de quem acha que casamento é para a vida inteira.
Quem se casa considerando que a relação é eterna entra no casamento como um aposentado. Se aposentar na relação é pensar e agir como se, estando casado, não precisasse mais seduzir, encantar, namorar.
Parte-se do pressuposto que o esforço não é mais necessário. Considera-se que a relação tem obrigação de ser perene porque é um casamento. Aí mora o perigo.
Casamento é disposição. Deves casar sabendo que terás o desafio diário de fazer pelo outro e para o outro. É fácil ser companheiro quando o casal está se conhecendo, se descobrindo. Terás de ser companheiro nos dias ruins, nas manhãs mal-humoradas e nos finais de tarde de esgotamento.
É quando o outro não tem mais energia para agir que deves fazer brotar a força da união. Pode deixar, meu bem, eu cuido disso para você. Se um não aguenta mais correr atrás da criança, o outro que assuma a função. Se um está cansado demais para acompanhar o filho na lição de casa, o outro que ponha sua paciência para trabalhar. Nessa gangorra o casamento funciona, mas se alguém deixar de fazer a sua parte por individualismo, o outro ficará sobrecarregado.
Casamento é abrir mão de si mesmo como prioridade. Tudo deve ser pensado e decidido considerando as duas opiniões, as duas necessidades, as duas vontades. E isso não vem automaticamente quando sobes no altar. Isso se aprende. É na superação dos limites individuais onde está a beleza do casamento, onde ele passa a ter valor.
Deves estar disposto a dar atenção e a ignorar.
A dar atenção aos sinais de como está o parceiro, sendo que estes sinais estão escondidos nas entrelinhas do dia-a-dia. Leia as entrelinhas. Ela sinaliza um descontentamento, deves pensar no que você fez que a deixou assim. Ele demonstra estar sobrecarregado, deves ajuda-lo dele para que ele recupere a disposição.
E a ignorar os comportamentos negativos que são resultantes do que seu parceiro passa durante o dia nas suas obrigações, fora de casa. Se não souber entender e tolerar, irás responder com outros comportamentos negativos, e isso atrapalhará a relação e pode terminar em afastamento.
A vida já se ocupará de criar um afastamento entre os cônjuges. Não duvide e não dê pouca importância a isso. Os problemas roubarão espaço dos pensamentos que levam a gestos que cativam o outro. O trabalho roubará a disposição para dar o seu melhor para a relação.
O cansaço insistirá para que use o seu pijama mais velho para ficar confortável. E isso fará com que a pior aparência que você pode oferecer fique para o lugar onde você mais deveria se preocupar em cuidar.
Os filhos disputarão a sua atenção e poderão criar uma muralha entre você e o seu marido ou você e sua mulher. E lhe caberá não deixar que os filhos impeçam vocês de namorar e de viajar. Deves cultivar um espaço para se conhecerem novamente conforme cada um muda com a vida.
Um casamento acaba quando não se olha para um distanciamento pequeno, que ainda pode se tornar reaproximação. Se um percebe o espaço vago e o outro ignora, não adianta. Ambos precisam estar envolvidos em diminuir a lacuna antes que o distanciamento vire um abismo.
Um casamento não deve ser para a vida inteira, deve ser para hoje. No máximo para esta semana. A relação deve ser olhada em pequenos intervalos de tempo, mas não pode ser olhada apenas nos aniversários de casamento. E tem quem esquece até dessa data. É muito tempo sem olhar a relação. E pouco cuidado para mantê-la.
O casamento que sobrevive à vida inteira é aquele que não se deixa morrer no cotidiano.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Você já se aposentou no casamento ou já se casou aposentado?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 12/04/2014, Edição Nº 1299.

3 comentários:

Maureen Spina disse...

É triste saber que muitos se perdem por conta desse "contrato".
"O casamento que sobrevive à vida inteira é aquele que não se deixa morrer no cotidiano."
Muito bom esse texto!
Parabéns!

Augusto Amato Neto disse...

Obrigado, Maureen!

Josilene Freitas disse...

Muito bom o texto! Parabéns.