sábado, 4 de outubro de 2014

A Caixa de Cartas

Arte de Weberson Santiago



Tínhamos acabado de almoçar num sábado, meu avô Tino, com 94 anos, e eu. Tomávamos um café enquanto ele contava uma história do passado, ilustrada com uma foto antiga tirada na época do ocorrido. Papo-vai-papo-vem, questionei como foi o começo do seu namoro com a minha avó Rosa, que infelizmente faleceu há alguns anos.
Ele começou a descrever a paquera sutil em volteios ao redor da fonte dos amores, na praça central de Mococa, os homens no sentido horário e as mulheres no sentido anti-horário. Um namoro muito diferente dos que vemos nos dias de hoje. A relação avançava a passos lentos como os de uma tartaruga. Era uma eternidade para se pegar na mão. Relatou o pedido de casamento para o sogro, a resistência dos irmãos. Pediu-me um minuto e foi para o quarto.
Voltou com uma caixa forrada do lado de fora com papel xadrez, desbotado. As laterais da tampa levemente rasgadas pelo efeito do tempo, mas cuidadosamente preservada inteira há quase setenta anos. Quando ele abriu, percebi que a caixa estava cheia de cartas que eles trocaram durante o namoro.
Papeis envelhecidos, cor-de-café-com-leite. Dobrados em quatro. Posso ver? – perguntei. Claro – respondeu. Abri a primeira, era dele para ela. No papel tinham marcas redondas mais escuras por detrás da tinta. Perguntei o que era. Ele disse que deveria ser a marca do perfume. Contou-me que não tinha perfume quando era jovem, mas que vez por outra pegava a colônia do pai escondido, molhava a ponta do dedo e encostava no papel. Pensei que o perfume da carta deveria fazer a Rosa imaginar o cheiro do seu cangote. Não podendo senti-lo de verdade, restava-lhe a imaginação. Palavras singelas, descompromissadas.
Dobrei e guardei, retirando outra. Era dela pra ele. Comentava amenidades. Alguns pontos com excesso de tinta sugeriam longos suspiros enquanto ela escrevia. Fiquei encantado com aquelas cartas, viajei no tempo, voltei para o início da história deles, mas não quis ver todas, nem ler todas as linhas. Temia ser invasivo. O mais importante foi ter compartilhado da intimidade dos meus avós, me senti privilegiado em ser uma espécie de confidente do meu avô.
Quando fui embora de sua casa, no trajeto de carro, senti um calafrio na barriga. Onde estão os cartões que a Natália me escreveu? – pensei. Não sabia. Nunca me preocupei em recolher os bilhetes carinhosos, os mimos. Cheguei em casa e comecei a procurar. Não achei nenhuma. Senti o peso da displicência. Lia o cartão que ganhava e deixava sobre a mesa da cozinha ou na sala. Esquecia dentro da sacola do presente. Valorizava o presente e abandonava o carinho do recado.
Decidi que começaria a guardar estes registros de sentimento quando ganhasse o próximo. Queria poder mostra-los aos meus filhos ou netos, como fez o meu avô.
Os dias se passaram e alguns finais de semana depois do ocorrido a Anelise teve dor-de-garganta e febre. Cuidávamos da pequena e a Natália me pediu para que pegasse um lenço na sua gaveta de lenços para embeber no álcool e colocar no pescoço da Ane. Enquanto ela dizia qual queria, eu descrevia os que encontrava e vasculhava sua gaveta em busca do que ela queria. Foi quando encontrei, lá no fundo, uma caixa vermelha, em formato de coração.
Abri por curiosidade. Lá estavam todos os nossos, bilhetes, cartões, recados. Ela havia recolhido tudo o que eu larguei jogado e guardou. Respirei aliviado por não ter sido fato consumado o desperdício imaginado.
Amar de verdade é ser um perito dos sentimentos. Amar é colecionar provas do carinho. Ela me ama tanto que tolerou meu desleixo para preservar as memórias do nosso amor.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Mantenha o hábito de escrever um cartão, deixar um bilhete ou uma carta. Mensagens reais valem muito mais do que as virtuais.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 04/10/2014, Edição Nº 1325.

3 comentários:

Maureen Spina disse...

Parabéns pelo texto, Augusto.

Elenir Lopes disse...

Você me enche os olhos de lágrimas. Sempre fui relapsa, nunca guardei nada. Que pena, mas é tempo de ensinarmos os mais jovens a guardar.Bjs

Markinhos Machado disse...

Augustinho Carrara, emocionante...
Também temos guardado muitas coisas desde o início do nosso relacionamento, que já faz 29 anos.
Para mim o amor é como um camaleão que muda de cor para se adaptar as circunstâncias da vida e sobreviver sempre!
Abraço

Markinhos Machado