sábado, 7 de março de 2015

Coceira de Comprar

Arte de Weberson Santiago


— Amor, olha o que eu trouxe? – abrindo a sacola.
— Outro pote, Dulce?
— Mas não é lindo, amor?
— Dulce, nossos armários estão cheios de potes para guardar mantimentos!
— É que eles estavam em promoção: paguei R$ 29,90 pelos três potes. E eles têm tampa que fecha sob pressão. Assim nossos alimentos não irão estragar como estragam quando ficam dentro do saquinho com um prendedor na ponta.
— Olha aqui Dulce, todos os alimentos que temos na dispensa já estão dentro de potes como estes!
— É que eles combinavam com o restante nossa cozinha. Você reparou que eles têm galinhas? Combinam com a lixeira e com o porta-detergente, Marcos Roberto! Ah, e com o pano de prato que minha mãe me deu, olha!
— Quer dizer que tudo o que você encontrar pela frente e que tiver uma galinha você irá trazer para casa? Você já deu uma olhada aqui dentro, não tem mais espaço em nossos armários pra mais nenhum objeto. Desse jeito vamos ter que guardar coisas de cozinha no nosso guarda-roupa!
— Você não me entende, Marcos Roberto! – diz ela já em prantos – Eu me mato de trabalhar, cuido dessa casa de noite e aos finais de semana, me desdobro em dez para dar conta das coisas do Robertinho e não posso nem comprar um pote novo que você acaba comigo?
— Mas toda semana você vem com alguma coisa nova. Nunca tá bom, nunca tem fim essa sua vontade de comprar?
— Você não me entende! – chorando mais ainda – Sempre me critica! Alguma vez eu não dei conta de pagar as coisas que eu compro? Se eu trabalho, eu posso gastar com o que eu bem entender!
— Ah, Dulce, vamos parar de discutir, vai! Não adianta nada. Toda vez é isso, eu implico e você continua comprando mesmo...
— É que quando eu passo na frente da loja e vejo uma coisa legal, me dá uma coceirinha de comprar... Aí eu penso: eu mereço me dar de presente!
— Eu não acho que você está certa de ficar compensando as dificuldades da sua vida comprando, mas como você disse, faz o que bem entender com o seu dinheiro. Eu não quero ficar brigando, afinal hoje é sexta-feira e está começando o nosso final de semana. Vou arrumar minhas coisas que amanhã cedo vou pra pescaria com os meus amigos.
Quinze minutos depois, com a parafernália de pesca espalhada na mesa da cozinha.
— Marcos Roberto, que molinete dourado é este aí? E essas iscas imitando peixes? Eu não conhecia esses seus apetrechos...
— Eu comprei agora saindo do trabalho. Estava precisando. Estas iscas são pra pescar durante a noite, brilham no escuro. Apaga a luz pra você ver.
— Mas você tem três caixas cheias de coisas de pescar. Não tem mais onde colocar essas suas coisas de pescaria naquele quartinho do fundo...
UM CAFÉ E A CONTA!
| O que você não deixa de comprar mesmo quando não tem mais necessidade?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 07/03/2015, Edição Nº 1345.

Um comentário:

Maureen Spina disse...

Augusto, muito bom o texto mostrando o dia-a-dia dos dois lados da moeda.
O que nao me canso de comprar é madeira para fazer artesanato e plantas. As plantas ate que dá para ajeitar um lugar, agora as madeiras... é, preciso refletir sobre isso. rs