sábado, 14 de novembro de 2015

O Medo de Perder

Arte de Weberson Santiago



Às vezes percebo em mim um medo de te perder. Este sentimento começa pequeno, como uma pedrinha que vai parar dentro do sapato. Então, ele persiste como quando a pedrinha fica mudando de lugar dentro do sapato, cada hora fazendo doer uma parte do pé.
A persistência do medo me faz imaginar possíveis motivos que você teria para me deixar. Rastreio possibilidades de motivos ao nosso redor. Se não encontro nenhum palpável, invento um. O medo faz de mim uma caçadora de possíveis motivos. A correria não me permite parar para cuidar deste incômodo. Talvez por isso é que às vezes o medo venha tão forte. Em meio aos meus afazeres sou invadida por um temor enorme de que você não volte mais para mim.
O medo parece um fantasma a me perseguir. O encontro nos lugares menos prováveis, como logo depois de um momento feliz que passamos. Acho que ele é um fantasma do passado. Uma consequência das traições que eu assisti e das traições que eu sofri. Como se nossa história não pudesse ser diferente.
Nossa história já é diferente. Você me faz tão bem e eu te amo tanto. Parece até que aquela música do Chico foi escrita pelo que eu sinto: “Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz”. Talvez, se você fosse um traste, eu não tivesse tanto medo. Ou tivesse. Mas é que apesar de ser chato às vezes, você é romântico, você me cuida, você me protege.
Quando eu confesso meu medo para você, você me recita aquela composição do João Cavalcanti, integrante de uma das suas bandas preferidas: “Sei que entre um cais e outro há incontáveis corações. Não navego neste mar de ilusões. Não aprendi a velejar, sem um norte a alcançar, sem um lar em terra firme”.
E mesmo você tentando me convencer de que você parte todo dia para regressar, meu medo me faz lembrar o final desta mesma canção: “Eu que cheguei a imaginar, no momento em que pisei, no teu chão tão bem cuidado. Que tinha achado meu lugar, que ali seria o rei e que o mar era passado. Mas a calmaria não convém. Que grande ironia é saber. O coração que é do mar, já nasceu pra navegar e não para em terra firme.”
Tenho medo que você descubra que seu coração é do mar, e não da terra. Não adianta vir com argumentos. Já repeti uma série de racionalidades para mim mesma e não adiantou de nada. Medos não seguem a razão, medos seguem o instinto e a intuição.
Queria ter a mesma segurança que você parece ter. Se para ter você eu preciso conviver com o medo de te perder, eu o aceito.
O medo de perder é um medo de amar. Não um medo de vir a amar, mas um medo de quem já ama. E muito.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Aquele que nunca teve medo de perder, nunca amou de verdade.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 14/11/2015, Edição Nº 1381.

Um comentário:

Maria Fernanda Silva disse...

Estou aqui de boca aberta pensando : Como não fui eu que escrevi essa crônica, se ela traduz meus sentimentos.