sábado, 16 de abril de 2016

Fugir Para Reencontrar

Arte de Weberson Santiago



Quando alguém divide comigo a vontade de fugir e deixar para trás algum conflito interpessoal eu sempre repito: o que você não resolve quando acontece, mais adiante reaparece para ser resolvido.
Não falo isso porque ouvi alguém falar. Não falo isso porque aprendi na faculdade de Psicologia. Falo isso porque toda vez que eu tentei me esquivar de enfrentar as situações de conflito, alguma situação semelhante aconteceu para que eu me lembrasse da pendência.
Aos vinte e poucos anos, quando acabou um namoro de três anos, resolvi fazer uma viagem para tentar fugir do sofrimento. No meio do caminho, numa das paradas do ônibus, entrou uma moça e sentou ao meu lado. Quando puxei papo, descobri que ela havia acabado de sair de uma separação bastante turbulenta. A viagem serviu para a lamentação dos machucados deixados pelos relacionamentos que não deram certo. Encontrei no caminho o que eu queria ter deixado para trás.
Há alguns anos, tive uma pequena discussão com meu avô que terminou com ele sendo rude como nunca havia sido comigo. Resolvi passar alguns dias sem vê-lo até que minha raiva diminuísse. Naquela mesma semana se matriculou um idoso no horário em que eu pratico natação. Enquanto todos os demais dividiam as raias, ele era espaçoso e ocupava uma raia só pra ele fazer sua hidroginástica. Tive de me controlar para não ser grosseiro e descobri que parte da raiva tinha a ver com o que estava engasgado pelo que aconteceu com meu avô, e não era justo descontar nele. Resolvi conversar com meu avô e retirar a raiva do meu caminho.
Rompantes de fuga não levam a gente muito longe, mesmo percorrendo milhares de quilômetros. A hora que a gente para de correr, se depara com um espelho: as situações novas que refletem nossas as velhas questões mal resolvidas.
A gente deixa as situações de conflitos quando foge, mas leva numa mala invisível os sentimentos que precisam ser resolvidos. E só serão resolvidos se encararmos a situação que tentávamos evitar.
As situações nos mostram que é preciso encarar o problema do qual fugimos. Sem a necessidade de se culpar por ter tentado fugir, o melhor é mudar a direção e ir em direção ao conflito para resolvê-lo.
Encarar é desagradável e vem acompanhado de alguma dose de sofrimento, mas é necessário. Além disso, ficar adiando o enfrentamento pode ter como consequência tornar o problema ainda maior e mais difícil de resolver lá na frente.
Sem enfrentar não é possível superar.
UM CAFÉ E A CONTA!
| A fuga só vem acompanhada de liberdade quando superamos nossos conflitos.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 16/04/2016, Edição Nº 1403.

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