sábado, 2 de abril de 2016

O Pôr da Sol

Arte de Weberson Santiago




Reencontrei a Sol dia destes, na fila da padaria. Enquanto esperávamos nossa vez de pegar o pão nosso de cada dia, aproveitei a oportunidade de me atualizar sobre a vida dela. Sua filha mais velha estava grávida e ela seria avó em quatro meses.
Embora a notícia do neto fosse prodigiosa, Sol compartilhou comigo a preocupação com o futuro do neto. “A vida está muito difícil nos dias de hoje, tem que pensar muito antes de pôr uma criança no mundo”, disse. Ela reclamou que não sabe se a filha fez um bom casamento.
Foi quando percebi que ela continuava a mesma dos tempos em que convivemos. Sol e eu fomos contemporâneos nos tempos estudantis. Fizemos o ensino fundamental na mesma escola. Ela é alguns anos mais velha do que eu, mas sua irmã estudou na minha sala.
Daquele tempo, me recordo que Sol foi sempre uma garota levemente deprimida e, ao mesmo tempo, complacente. Vivia rodeada de amigas, mas tinha um jeito peculiar de ser. Uma espécie de pessimismo congênito, uma mania de ver o lado negativo das coisas. Resistia brincar de pega-pega porque poderia cair e quebrar um dente. Ao contrário das outras crianças, não comemorava quando a escola planejava uma excursão. Não gostava de sair da rotina. Ainda assim, Sol era uma apática simpática.
Ia cabisbaixa para a aula de educação física porque tinha que correr. Sol era tão reflexiva e vagarosa que não conseguia conciliar o movimento e o pensamento nas aulas de vôlei. Ou ela olhava a trajetória e pensava onde a bola iria cair, ou ela corria. E a Sol nunca acertava a bola, nem quando ela vinha redonda em sua direção. Se era para dar o toque, ela tentava uma manchete e tomava uma bolada no peito. Se era para dar manchete, tentava o toque e via a bola cair entre as suas mãos, rente ao seu corpo. Sol não era movimento, sol era contemplação.
As crianças, em seu jeito de ser, costumam ser empolgadas e inocentes ou agitadas e agressivas. Sol não. Sol esbanjava marasmo e talvez por isso despertasse nas outras crianças a vontade de desafiar a sua tristeza com o vigor de sua energia. Nunca conseguiam tirá-la do lugar, mas havia sempre alguém ao seu lado, como se algumas de suas colegas revezassem a companhia. Nunca vi a Sol sozinha. Sol não se sentia a principal estrela, mas Sol sabia que era parte de um sistema solar.
Quando saí da escola e fui fazer o ensino médio em outro colégio, perdi o contato com a Sol. Soube quando ela se casou e quando teve suas filhas. Gostei de reencontrá-la naquele dia e matar a saudade da luz, ou melhor, da sombra da Sol. Mesmo com o discurso igual ao da hiena do desenho da nossa infância: “Ó céus! Ó vida! Ó azar!” e “Isso não vai dar certo...”. Nesta última vez, fiquei com a sensação de que Sol era uma luz quase se apagando, mas que não chegava a incomodar quem queria enxergar.
Um mês depois, soube de uma triste notícia. Sol não aguentou passar pelo solstício de inverno. A escuridão passou a ocupar a maior parte do dia da Sol. A sombra foi crescendo, aumentando. Sol foi ficando pequena, fraca. Sol se matou. Pôs fim a própria vida. Não chegou sequer a conhecer seu neto. Entendi que Sol sempre foi madrugada. Compreendi que Sol era a pura melancolia da noite. Sol era lua. Nunca esquecerei do dia em que a Sol se pôs.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Quem se mata o faz para por fim ao próprio sofrimento, insuportável. E este sofrimento passa para quem fica.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 02/04/2016, Edição Nº 1401.

Um comentário:

Elenir L B Freitas disse...

Poético, comovedor o texto. Amei. Quanta gente Sol que conhecemos e que não é capaz de enxergar a própria luz. Gente que se entrega. Niilistas incapazes de se dar a oportunidade de descobrir a beleza, de sentir a ternura do outro, egoístas que não percebem que outros nem Sol são, são sombras e não se queixam, esperando que, um dia, sejam atingidas por um raio de Lua. Beijão, querido Augusto.