sábado, 18 de novembro de 2017

Contrabando na Feira deOrganicos

Arte de Weberson Santiago



Acordamos animados num sábado de manhã e resolvemos fazer um programa diferente: visitar pela primeira vez uma feira de produtores de comida, produtos orgânicos e artesanato. Nos arrumamos para o passeio e pegamos a estrada.

Chegando lá, começamos a explorar as barracas, a conversar com os produtores e com as pessoas que estavam por lá. Ficamos encantados com esta forma de comércio de antigamente, onde ficamos mais próximos de quem produz e de trocar afeto numa relação de compra.

 A certa altura do passeio de compras, estávamos numa barraca de pães integrais com e sem recheios orgânicos. Já havíamos tido uma aula sobre fermentação natural e estávamos provando os recheios. Aliás, esta é outra delícia deste tipo de feira, você experimenta várias coisas e só leva o que realmente gostar.

Nessa hora, chegou um cliente antigo e a dona da barraca de pães nos pediu licença e foi lhe dar atenção. A senhora da barraca ao lado, que vendia antepastos em parceria com a do pão se aproximou e perguntou de canto de boca:

— Vocês são veganos?

Respondemos prontamente que não. Ela então olhou para os lados, abriu sua caixa de isopor e disse:

— Eu tenho um pernil aqui que ficou oito horas no forno – disse com a boca de ventríloquo para que as pessoas não pudessem ler seus lábios.

Me senti no meio da favela, comprando droga na boca. Imaginei a cena de alguma fiscal, tipo a Bela Gil, aparecendo na feira e passando por perto da barrada dela. “Ó os home!”, eu ia gritar, para ela ter tempo de esconder o pernil.

E como boa vendedora, ela sabe para quem oferecer: achou que tínhamos cara de gulosos. A Natália pirou na bandejinha transparente cheia de carne acebolada com azeitonas pretas. Eu estava na dúvida do recheio do pão e, enquanto a Natália pensava no pernil, ela já havia escondido a iguaria, quando ela soltou para a Natália:

— Nossa, mais que pele, hein, bem? – sugerindo que ela deveria repor as energias gastas na noite anterior mandando ver no pernil.

Não deu outra, a Natália sacou a carteira e levou “o produto secreto”. Tendo certeza de termos escolhido o que a feira tinha de melhor, continuamos o passeio.

Adoramos todos os produtos orgânicos que trouxemos, mas o que mais foi divertido comer foi o pernil. Passamos os dias seguintes lembrando da situação da sua venda e caindo na risada.
E como o proibido é sempre mais gostoso, o pernil deve ser o mais vendido da feira de orgânicos.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Divirta-se com as coisas simples.


sábado, 4 de novembro de 2017

Rolé no Centro

Arte de Weberson Santiago



Outro dia eu caí numa cilada. A Natália me convidou para ir com ela no centro da cidade no sábado de manhã. O convite veio disfarçado de café da manhã na padaria com uma passadinha rápida em um lugar antes e um lugar depois, mas se revelou no que eu chamo como uma interminável peregrinação pelo comércio.

Minha mulher numa rua de comércio é como uma criança na sessão dos chocolates, como um homem na loja de ferramentas. As vitrines são convites, os produtos que ela gosta são como um imã que atraem a atenção e a puxam para dentro do estabelecimento. Um pagamento a vencer que só pode ser pago em uma loja envolve um convite para ver as novidades. E mesmo que ela não compre, parece que essa saída, o passeio e o entra e sei são terapêuticos, porque ela volta animada e renovada.

O pretexto é sempre uma pendência que não pode ser resolvida na semana: passar da farmácia para comprar o medicamento que está faltando ou um produto que falta no supermercado. Na prática, as necessidades se multiplicam como greemilings quando se joga água. “Será que naquela loja de um e noventa e nove tem aquele apetrecho de cozinha que está faltando?”, ao mirar a fachada. “Nossa! Ainda bem que estamos aqui, preciso comprar aquele presente para a nossa amiga que está grávida!”. Com isso, a saidinha tomou a manhã toda e se estendia pelo horário do almoço.

Se para ela o passeio estava ótimo, para mim foi uma tortura. Enquanto a gente entrava e saía das lojas eu pensava: “agora eu poderia estar nadando, adiantando aquele trabalho para a próxima semana ou até mesmo não fazendo nada em casa”. Como a irritação foi crescente, ela percebeu, cortou alguns compromissos e fomos embora.

Conversando em casa, combinamos que o sábado de manhã, depois do café, é cada um por si, fazendo o que precisa e o que gosta de fazer até que nos reencontremos para o almoço. Assim, ninguém fica aborrecido e insatisfeito. Temos outros momentos para ficar juntos.

Agora, a grande prova de amor foi o que ela me pediu no último aniversário: fazer compras na 25 de março em São Paulo. Respirei fundo, utilizei técnicas de meditação, reuni toda a minha disposição e passei seis horas acompanhando suas compras e cumprindo o check-list de desejos e necessidades que ela fez para o passeio.

O que a gente não faz por amor?

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Quando for convidar seu namorado ou marido para passar a manhã andando no centro, certifique-se que ele está disposto.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 04/11/2017, Edição Nº 1484.

sábado, 21 de outubro de 2017

As Árvores São Como Pessoas

Arte de Weberson Santiago



Estava voltando de uma viagem de trabalho durante o entardecer e me peguei observando as árvores do caminho. Fiquei pensando que árvores são como pessoas.

Algumas tinham galhos que formavam desenhos que pareciam ter sido cuidadosamente esculpidos para gerar harmonia e leveza. Como aquelas pessoas que, quando temos contato, nos causam uma boa sensação de equilíbrio.

Certas árvores estavam bastante ressequidas, como as pessoas amargas que somos obrigados a conviver.

Outras árvores demonstravam que fizeram muito esforço para se adaptar às condições desfavoráveis e continuar a sobreviver. Uma em especial criou mais raízes grossas para não cair em um buraco que foi crescendo com a erosão. Essa árvore é igual as pessoas resilientes, que são mais resistentes às adversidades.

Observei uma delas que o tronco se dividia em dois galhos. Em deles havia sido arrancado, não sei como. O outro galho, para compensar a perda, criou uma copa nele mesmo, ficando uma árvore torta, formando um L de ponta cabeça, como se o tronco tivesse sito entortado e a copa ficasse na horizontal. Isso me lembrou das pessoas com alguma deficiência física que foram persistentes e desenvolveram aquilo que elas têm, ao invés de ficar lamentando o que lhes falta.

Várias árvores se encontravam sozinhas no meio do nada, mas verdejantes e satisfeitas. Como as pessoas que se bastam.

Havia ainda as que se encontravam sozinhas e pareciam tristes e judiadas, como quem perde alguém e se deprime.

Determinadas árvores crescem vicejantes agrupadas com outras espécies. Aproveitam as folhas que caem para enriquecer o solo. Compartilham da mesma irrigação. Enquanto algumas vão se espichando para procurar um lugar ao sol, outras aproveitam a sombra que se forma. Elas aceitam trepadeiras. Como as pessoas que sabem dividir, que preferem conviver, que aceitam as diferenças.

As árvores são como as pessoas, nascem, crescem e morrem, mas deixam sementes.

As árvores são como as pessoas que sofrem com a vida, mas não aceitam perder a vontade de viver.

As árvores, tal qual as pessoas, não se importam com a expectava dos outros e crescem, amadurecem, dão flores e frutos a seu tempo, nos ensinando a ter paciência com a mudança e o tempo de cada um.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| As árvores são pessoas.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 21/10/2017, Edição Nº 1482.

sábado, 7 de outubro de 2017

Destilada e Fermentado

Arte de Weberson Santiago


As pessoas poderiam ser divididas entre as que são destiladas e as que são fermentadas na sua forma de ser e viver.

Descobri isso enquanto observava como ela e eu reagimos de maneira diferente diante das mesmas coisas.

Enquanto ela é destilada, eu sou fermentado.

Ela extrai o melhor das experiências, eu vou colecionando pequenos prazeres.

Ela vive a vida com intensidade, eu vivo a vida com calma.

Ela escolhe com voracidade, eu escolho com parcimônia.

Enquanto eu demoro um século para planejar uma mudança, ela muda tudo com rapidez sem o menor pudor.

Eu sou do planejamento minucioso que dá segurança, ela do improviso que dá certo.

Eu faço uma coisa de cada vez, ela faz uma dezena de coisas ao mesmo tempo.

Eu cultivo a sabedoria da experiência, ela a intensidade do viver.

Enquanto ela sobe rápido, eu mantenho o grau.

Ela bate e volta, eu levo e amorteço.

Ela esbraveja o que lhe incomoda, eu fico pensando nos motivos que a pessoa teve para agir assim.
Ela esbaforida corre o tempo todo, eu procuro os intervalos dos arrotos.

Ela aquece de raiva, solta vapor de ira e demora a gotejar suas mágoas. Eu, quando sou agredido, demoro a constatar um incômodo e minhas raivas borbulham aos poucos.

Enquanto eu espumo, ela permanece cristalina.

Eu tenho a leveza de uma cerveja Pilsen, ela a delicadeza de um Saquê.

Eu sou Bock quando sou doce com quem está ao meu lado, ela um licor de ternura.

Eu sou encorpado pela sabedoria da experiência como uma cerveja Weissbier, ela como um Whisky 21 anos.

Eu sou amargo como uma Pale Ale quando estou de mal humor, ela vira aguardente quando irritada.

Enquanto as pessoas recomendam não misturar as bebidas, para nós, uma noite só é completa quando a gente combina uma destilada com um fermentado.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Os opostos ensinam um ao outro o outro o que lhe falta.
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 07/10/2017, Edição Nº 1480.

sábado, 23 de setembro de 2017

Caminhe Escolhendo o Caminho

Arte de Weberson Santiago



Imagine que você tem um caminho a percorrer e um lugar para chegar. Entre o local onde você está e o seu ponto de chegada existem diversas montanhas espalhadas pelo território e entre elas espaços planos. Você tem duas opções para seguir o seu caminho.

Você pode ir pelos espaços planos entre as montanhas, a primeira opção. Nesta opção você tem de percorrer uma distância maior, dando a volta nas montanhas. A vantagem é que não enfrentará subidas e descidas.

A segunda opção é seguir uma linha mais ou menos reta e enfrentar os aclives e os declives. Sentirá a sua coxa doer na subida e sua panturrilha gritar na descida.

Acrescente a esta situação uma informação importante para tomar a decisão de qual opção escolher. Você não tem um mapa para te guiar entre o local da saída e o local da chegada. A intuição é a sua bússola e as suas emoções são as suas companhias.

Qual dessas duas opções você escolheria? Andar mais no espaço plano, evitando ultrapassar as montanhas, ou seguir um caminho reto, mas cheio de obstáculos?

A primeira opção parece tentadora. Diante do desafio, quando nos deparamos com medos e inseguranças, escolher o caminho mais confortável e com menos desafios parece ser a escolha mais inteligente, ou pelo menos, mais econômica.

Na verdade, escolher dar a volta nas montanhas é se esquivar de enfrentar os sentimentos e as dificuldades externas para se manter numa zona de conforto. Querer percorrer apenas as planícies é acomodação.

Pense nesta imagem como uma metáfora sobre como se leva a vida. Passar a vida fugindo de enfrentar as situações desafiadoras promove a sensação de se ter uma vida morna e sem graça, além de acumular a frustração de não ter conseguido construir algo que tenha valor. Um amplo repertório de comportamentos de esquiva reforça os sentimentos de medo e as inseguranças. Também reforça pensamentos de derrotismo e de incapacidade.

Embora o segundo caminho pareça mais difícil, ele tem algumas vantagens que o primeiro não tem. As pessoas que tem grandes conquistas em sua vida, vitórias que costumamos admirar, contam que tão importante quanto o a vitória foi o caminho até lá, que as dificuldades enfrentadas foram ocasiões para testar e comprovar a sua capacidade de superação.

Uma segunda vantagem é que, a cada montanha que se chega ao topo, você ganha de presente uma visão do horizonte. Você é capaz de olhar ao passado e ao futuro com distanciamento, podendo analisar erros e acertos, deixando para trás o que não vale mais a pena e escolhendo novamente aonde quer chegar. O exercício de olhar a nossa própria vida como se estivéssemos de fora dela é essencial para construir uma vida que valha a pena.

Não é à toa que, quando a gente está diante do horizonte, o longe parece perto. É para nos dar coragem para buscarmos aquele lugar. E não é à toa que o no caminho da praia o lugar que parecia perto demora a chegar. É para darmos valor ao esforço que fazemos na caminhada.


  UM CAFÉ E A CONTA!
| Nos tornamos indivíduos a partir de quando escolhemos nossos caminhos por nós mesmos, sem que os outros decidam pela gente.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 23/09/2017, Edição Nº 1478.

sábado, 9 de setembro de 2017

A Nossa Dança

Arte de Weberson Santiago




Nós dançamos tão bem juntos. Não frequentamos aulas de dança, mas na dança da vida nós dançamos como nenhum outro casal.

Quando escolhemos formar um par, ouvimos de muitas pessoas que formávamos uma bela dupla e cada um de nós ouviu de pessoas do nosso convívio que nosso amor era uma loucura.

E nós? Nós não ouvimos ninguém. Ouvimos apenas a voz que, dentro de nós mesmos, mandava seguirmos adiante como aquele homem e aquela mulher que saem dos dois extremos da pista de dança em direção ao outro, até que se encontram no centro, sob a luz do desejo. E, ofuscados pela luz, esquecemos dos outros e passamos a viver um pelo outro.

Eu lhe convidando com meu cavalheirismo para lhe apresentar mais adiante a paixão que mora dentro do meu amor. Você me convidando com o movimento da beirada da sua saia para descobrir o calor da paixão que é velado pelo pano da saia do seu amor.

Nessa nossa dança, tivemos todas as trilhas sonoras possíveis. Desde as músicas mais animadas até as mais melancólicas. Agitadas e lentas. Como é a vida para todo mundo, mas que nos fizeram perceber o nosso estilo de dançar conforme a música.

Nós dançamos muito bem juntos, mas já perdemos o compasso. Já nos distanciamos por brigas e desentendimentos. Mas nosso amor foi mais forte e nos uniu de novo. Foi quando descobrimos que quando as mãos se soltam, a dança não termina porque continuamos um par mesmo quando estamos distantes.

Nós dançamos bem juntos, mas de vez em quando pisamos um no pé do outro. Eu reclamo quando você pisa na minha unha encravada, você me xinga quando eu piso no seu calo, mas logo estamos dançando de novo. Passa rápido porque a gente não quer desperdiçar o tempo. O resto da vida é pouco para nossa dança.

Quando um sai na frente porque está adiantado em alguma questão-refrão, não dá muitos passos sozinho até voltar para resgatar o outro. Na frente ou atrás é só durante o rodopio do bailado, já que quando estamos sozinhos é frente a frente e quando estamos vivendo é um ao lado do outro. A vida não faz sentido quando não formamos um par.

Como eu admiro seus passos. Sua firmeza delicada. E você me confessou que admira minha postura esguia e meu olhar doce. Nossos olhos dançam aos pares enquanto a vida passa. Eu fui te ensinando a ver o mundo com o olhar da razão onde somente havia o olhar da emoção. E você foi colocando luz na minha sombra de rigidez com o reflexo iluminado de seus olhos de maneira que eu me tornasse mais sensível.

Eu nunca achei que fosse encontrar um par que me completasse tanto. Eu nunca achei que uma dança a dois pudesse me realizar tanto na pista da vida.

Eu sou seu homem e você é minha mulher. E nesses sete anos eu descobri que eu só quero que nossa dança nunca mais acabe.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Entregue-se e viva inteiro.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 09/09/2017, Edição Nº 1476.

sábado, 26 de agosto de 2017

A Biblioteca Revirada

Arte de Weberson Santiago


Levei um susto. Deixei a recomendação de uma limpeza profunda à faxineira e quando voltei minha estante de livros havia sido repaginada. Olhava para a seqüência de livros e não os reconhecia. Era como se não soubesse o que estava escrito nos livros já lidos. De repente sinto pânico de pensar “e se eu precisar achar um livro e não encontrar?”.

O impacto desse episódio foi estranho. Saber onde estava cada livro me dava segurança. Segurança de precisar retomar algum pensamento e encontrar onde eu o deixei. Olhava para aquela arrumação sem critérios e não conseguia ver o mesmo conjunto de livros ao me perder quando precisava de um volume.

Uma estante é uma estrutura para guardar livros, mas não é apenas um depositário de calhamaços de papel. Ela serve para facilitar a minha relação com os livros, a estante tem uma função. Posso separar por temática, pôr em ordem alfabética e de repente esconder algum volume que me dê vergonha, como aquele livro de autoajuda.

Acumular livros é um comportamento altamente prazeiroso para mim, eles são os documentos que marcam os caminhos da minha vida. São companheiros dos encontros e desencontros. Dos encontros em que houveram empréstimos. Dos desencontros que deixaram lacunas na estante. Livros são testemunhas das idas e vindas, de quando fui com as mãos abanando e voltei com um exemplar. O peso de um livro não sobrecarrega, mas torna a vida mais leve.

Não existe um delator maior do que uma biblioteca particular. É possível reconstituir uma história de vida conhecendo apenas a coleção de livros de um indivíduo. As obras que o formaram como profissional revelam a especialização. Pelas dedicatórias descobrem-se os amores. Pelos amassos e rabiscos, as manias do dono da estante.

E foi retirando todos os livros e colocando novamente a minha maneira que redescobri meu caminho. Vivi uma retrospectiva quando me deparei com certas obras.

Encontrei um clássico de Dale Carnegie intitulado Como fazer amigos e influenciar pessoas. Não resisti quando me deparei com este livro num sebo perto do apartamento que morava em São Paulo. Comprei. Cada vez que abro suas páginas caio na risada com os subtítulos do livro de 1936: como fazer as pessoas gostarem de você imediatamente; um modo certo de fazer inimigos e como evitá-lo; quando tudo falhar, experimente isso. O interessante é a sinceridade da autora no prefácio reconhecendo que o dono da editora a procurou para reverter os 7 fracassos a cada 8 livros lançados. Vendeu milhões de exemplares em diversos idiomas e é um dos meus livros preferidos de comédia. Tenta ser tão prático que chega a ser simplista demais.

Agora, a estrutura da estante voltou a cumprir sua função. Cada livro está em seu lugar na biblioteca e sou capaz de achar qualquer um que eu precise. Guardo minhas histórias na estante da imaginação. Retiro lembranças das prateleiras para ter certeza que estou vivendo. Por vezes, para falar preciso do documento na mão. A não ser quando saio para fazer amigos e influenciar pessoas. Hoje sou especialista e não preciso mais de manual.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Qual trajetória a sua biblioteca revela?
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 26/08/2017, Edição Nº 1474.

sábado, 12 de agosto de 2017

A Vitrola do Jonas

Arte de Weberson Santiago




Acabei de receber uma ligação do meu amigo Jonas. Nós fizemos junto o ginásio e o colegial, quando ainda eram chamados assim.

Ele me ligou para agradecer uma coisa que lhe falei há mais ou menos seis meses atrás, quando nos encontramos, sem combinar, num café e aproveitamos para colocar o papo em dia e nos atualizarmos sobre a vida um do outro.

Toda vez que nos encontrávamos, Jonas reclamava de seu pai ou de sua mãe. Foram muitas as vezes que me lembro de ouvir suas reclamações. Dizia que o pai sempre implicava muito com ele, com seus gostos musicais, com seu jeito de ser. Numa outra vez, reclamou que o pai se recusava a lhe ajudar quando ele precisava e, quando o fazia, ficava cobrando ou jogando na cara.

Jonas também reclamava da mãe, que nunca cuidou dele e dos irmãos direito. Que sempre foi ausente, ou porque trabalhava demais, ou porque não estava bem para lhes dar atenção. Ela não gostava dos seus amigos, que ele adorava, e dizia que eram más companhias. Certa vez reclamou também que ela vivia podando sua liberdade.

Na adolescência, também incomodado com meu pais e no ápice da rebeldia, dava toda a razão para o meu amigo. Na época da universidade, em que ainda dependíamos de nossos pais financeiramente, comecei a achar que eles não eram tão ruins assim, pois lhe deram muitas possibilidades, mas preferia manter meu pensamento guardado.

Na última vez que nos encontramos, quando percebi que a trilha sonora em mp3 do pen drive do Jonas seria a mesma que eu ouvia na vitrola através da agulha percorrendo as ranhuras dos discos de vinil em nossa adolescência, resolvi ser sincero.

Disse-lhe que ele me reclamava dos seus pais desde a nossa infância e que não entendia porque ele ainda se incomodava e se queixava tanto até os dias de hoje. Sua vida ia bem, a profissão estava caminhando e dando melhores resultados a cada ano, o casamento não tinha maiores problemas e seu filho crescendo com saúde. Ele ficou surpreso pelo questionamento, mas eu não parei por aí.

Falei: “Jonas, o problema não é o que seus pais deixaram e deixam de lhe dar. O problema é que você não aceita os seus pais como eles são e não consegue enxergar que você soube levar a vida muito bem sem que eles lhe dessem o que você se queixa. Seus pais foram os melhores que eles conseguiram ser. Você é um ótimo pai, bem diferente daquilo que lhe incomodou na infância. Hoje você tem condição de ser, você mesmo e para si mesmo, esse pai e essa mãe que você passou todos estes anos esperando que seus pais fossem.”

Ele ficou parado, meio em estado de choque com minhas palavras. Após alguns segundos em silêncio, mudou de assunto perguntado algo da minha vida.

Eu fui embora pensando que tinha pegado pesado demais. Depois que ficamos algum tempo sem trocar mensagens no celular, chegou a passar pela minha cabeça que eu tinha perdido um amigo.

Ele me ligou hoje para me dizer que, depois de refletir sobre aquilo que lhe falei, percebeu que ele realmente não precisa mais de que seus pais lhe deem o que ele tanto reclamava. E que a partir de uma postura de menos cobrança e menos magoada, que seu relacionamento com os pais tinha até melhorado. Fiquei surpreso com a ligação e contente por ter conseguido lhe ajudar.

As vezes a gente esquece de virar o disco até que alguém pergunta se dá para mudar de trilha sonora.
  UM CAFÉ E A CONTA!
| O que não vier de mão beijada, arregace as mangas e corra atrás para conquistar.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 12/08/2017, Edição Nº 1472.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Marcos Marcou Touca

Arte de Weberson Santiago



Marcos tinha uma mania. A mania de guardar as coisas que comprava ou ganhava para usar em uma situação especial. No seu aniversário, se ganhava uma camiseta, guardava junto às suas outras roupas novas para que usasse quando tivesse um compromisso importante.

Se ele comprava um perfume, tinha dó de usar e acabar com o perfume e, quando tivesse uma ocasião especial, não houvesse mais do perfume para usar. Até para estrear cuecas e meias novas Marcos aguardava uma ocasião diferente.

Acontece que a vida de Marcos tinha muito mais cotidiano do que ocasiões especiais. Por isso, Marcos estava sempre vestido com roupas velhas e surradas. Por isso, Marcos sempre se perfumava com sua colônia mais barata.

Quem convivia com Marcos não imaginava o que ele dispunha em seu guarda-roupa. Marcos não se dispunha a mostrar o que ele guardava porque vivia a esperar uma ocasião especial.

Marcos morreu com um guarda-roupa e com uma coleção de perfumes de dar inveja. Só que ninguém conheceu nem as roupas bonitas nem os perfumes exuberantes que Marcos tinha.

Existem pessoas que são como o Marcos. Mas ao invés de guardar roupas e perfumes, guardam o que tem de melhor em termos de comportamento. Não achava a rotina boa o suficiente para exercitar a gentileza e a cooperação.

Os Marcos no comportamento não consideram as pessoas de sua convivência boas o suficiente para compartilhar o bom-humor e a alegria. Os Marcos que sonegam afeto, estão sempre indiferentes e apáticos.

As pessoas como este Marcos que eu descrevi passam a vida toda sem deixar uma marca positiva nas outras pessoas. De tanto esperar conhecer pessoas especiais para então demonstrar o que tem de especial, acabam por se tornar desagradáveis na convivência por toda a vida.

E aí, Marcão? Tá esperando o que para demonstrar o que tem de melhor para as pessoas? Vê se não fica aí marcando...

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Os Marcos que me desculpem o trocadilho, mas a escolha do nome se deu por finalidades poéticas. Precisava dar um nome para o que todo mundo faz, em maior ou menor grau.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 28/07/2017, Edição Nº 1470.

sábado, 15 de julho de 2017

Pegadinhas dos Meus Avós

Arte de Weberson Santiago




A família da minha avó paterna, Rosa, sempre foi muito divertida. Eles gostavam de fazer brincadeiras e pregar peças nos familiares.

Era uma tarde qualquer no início dos anos 90 quando a Tia Joana, irmã da minha avó, chamou minha mãe no telefone e falou pra passarmos da casa dela porque ela tinha algo para nós. Meu pai tinha uma Chevrolet Chevy 500, meus dois irmãos mais novos e eu íamos na carroceria. Ele chegou do trabalho, todos entraram no carro e fomos até lá.

Ao chegar na casa da Tia Joana, foi só dar uma buzinada e ela saiu com uma travessa cheia de pasteis. Nós nem descemos do “tomóve”, como ela se referia a um carro, e ficamos ali na porta, em cima da caminhonete, comendo pastel e jogando conversa fora. Já tinha comido dois, quando peguei um terceiro. Era o maior de todos. Na primeira mordida, todos caíram na risada. Não deu nem tempo de mastigar, mas o pastel estava cheio de algodão. Era uma pegadinha para pegar o guloso, que seria atraído pelo maior dos pasteis. A brincadeira do pastel recheado de algodão era uma tradição familiar. Todas as mulheres da família faziam.

Uma vez, passeando em Santos, meus avós passaram por uma casa que vendia apetrechos de mágica. Curiosos, entraram para conhecer e descobriram que ali eram vendidas objetos de brincadeiras e levaram algumas coisas.

Um dia, meus pais nos deixaram na casa dos meus avós porque tinham um compromisso noturno. Ao chegar, minha avó falou pra levarmos a mochila pro quarto onde dormiríamos. Ao chegar lá, tinha um belo de um cocô em formato do sorvete da casquinha do McDonalds. Nós não entendemos nada porque na casa deles nem tinha cachorro. Ela caiu na risada. O cocô era de plástico.

Já o meu avô, tinha um apito de gato que ficava escondido dentro da boca e ele adorava fazer os netos mais novos procurarem o suposto gato que miava pelos jardins ou embaixo dos móveis da casa. Tem uma fita VHS com o meu irmão Caio se jogando no chão a procura do gato.

Minha avó materna, Malvina, já não era de preparar brincadeiras, mas foi responsável por uma das cenas mais divertidas da minha infância. Um dia meus pais nos deixaram na casa dela para sair a noite. Nem desceram do carro. Nós três paramos na porta, cheio de sacolas,  tocamos a campainha e quando ela abriu a porta, sua saia caiu e ela ficou só com o saiote que estava por baixo. Nós três caímos na risada e ela também. Parecia ter sido planejado e ensaiado, pois a porta abriu e um segundo depois a saia caiu.

A vida fica mais leve quando a gente brinca e se diverte.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Busque alternar momentos de tensão com momentos de leveza. Faça alguém sorrir.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 15/07/2017, Edição Nº 1468.