sábado, 12 de agosto de 2017

A Vitrola do Jonas

Arte de Weberson Santiago




Acabei de receber uma ligação do meu amigo Jonas. Nós fizemos junto o ginásio e o colegial, quando ainda eram chamados assim.

Ele me ligou para agradecer uma coisa que lhe falei há mais ou menos seis meses atrás, quando nos encontramos, sem combinar, num café e aproveitamos para colocar o papo em dia e nos atualizarmos sobre a vida um do outro.

Toda vez que nos encontrávamos, Jonas reclamava de seu pai ou de sua mãe. Foram muitas as vezes que me lembro de ouvir suas reclamações. Dizia que o pai sempre implicava muito com ele, com seus gostos musicais, com seu jeito de ser. Numa outra vez, reclamou que o pai se recusava a lhe ajudar quando ele precisava e, quando o fazia, ficava cobrando ou jogando na cara.

Jonas também reclamava da mãe, que nunca cuidou dele e dos irmãos direito. Que sempre foi ausente, ou porque trabalhava demais, ou porque não estava bem para lhes dar atenção. Ela não gostava dos seus amigos, que ele adorava, e dizia que eram más companhias. Certa vez reclamou também que ela vivia podando sua liberdade.

Na adolescência, também incomodado com meu pais e no ápice da rebeldia, dava toda a razão para o meu amigo. Na época da universidade, em que ainda dependíamos de nossos pais financeiramente, comecei a achar que eles não eram tão ruins assim, pois lhe deram muitas possibilidades, mas preferia manter meu pensamento guardado.

Na última vez que nos encontramos, quando percebi que a trilha sonora em mp3 do pen drive do Jonas seria a mesma que eu ouvia na vitrola através da agulha percorrendo as ranhuras dos discos de vinil em nossa adolescência, resolvi ser sincero.

Disse-lhe que ele me reclamava dos seus pais desde a nossa infância e que não entendia porque ele ainda se incomodava e se queixava tanto até os dias de hoje. Sua vida ia bem, a profissão estava caminhando e dando melhores resultados a cada ano, o casamento não tinha maiores problemas e seu filho crescendo com saúde. Ele ficou surpreso pelo questionamento, mas eu não parei por aí.

Falei: “Jonas, o problema não é o que seus pais deixaram e deixam de lhe dar. O problema é que você não aceita os seus pais como eles são e não consegue enxergar que você soube levar a vida muito bem sem que eles lhe dessem o que você se queixa. Seus pais foram os melhores que eles conseguiram ser. Você é um ótimo pai, bem diferente daquilo que lhe incomodou na infância. Hoje você tem condição de ser, você mesmo e para si mesmo, esse pai e essa mãe que você passou todos estes anos esperando que seus pais fossem.”

Ele ficou parado, meio em estado de choque com minhas palavras. Após alguns segundos em silêncio, mudou de assunto perguntado algo da minha vida.

Eu fui embora pensando que tinha pegado pesado demais. Depois que ficamos algum tempo sem trocar mensagens no celular, chegou a passar pela minha cabeça que eu tinha perdido um amigo.

Ele me ligou hoje para me dizer que, depois de refletir sobre aquilo que lhe falei, percebeu que ele realmente não precisa mais de que seus pais lhe deem o que ele tanto reclamava. E que a partir de uma postura de menos cobrança e menos magoada, que seu relacionamento com os pais tinha até melhorado. Fiquei surpreso com a ligação e contente por ter conseguido lhe ajudar.

As vezes a gente esquece de virar o disco até que alguém pergunta se dá para mudar de trilha sonora.
  UM CAFÉ E A CONTA!
| O que não vier de mão beijada, arregace as mangas e corra atrás para conquistar.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 12/08/2017, Edição Nº 1472.