sábado, 7 de outubro de 2017

Destilada e Fermentado

Arte de Weberson Santiago


As pessoas poderiam ser divididas entre as que são destiladas e as que são fermentadas na sua forma de ser e viver.

Descobri isso enquanto observava como ela e eu reagimos de maneira diferente diante das mesmas coisas.

Enquanto ela é destilada, eu sou fermentado.

Ela extrai o melhor das experiências, eu vou colecionando pequenos prazeres.

Ela vive a vida com intensidade, eu vivo a vida com calma.

Ela escolhe com voracidade, eu escolho com parcimônia.

Enquanto eu demoro um século para planejar uma mudança, ela muda tudo com rapidez sem o menor pudor.

Eu sou do planejamento minucioso que dá segurança, ela do improviso que dá certo.

Eu faço uma coisa de cada vez, ela faz uma dezena de coisas ao mesmo tempo.

Eu cultivo a sabedoria da experiência, ela a intensidade do viver.

Enquanto ela sobe rápido, eu mantenho o grau.

Ela bate e volta, eu levo e amorteço.

Ela esbraveja o que lhe incomoda, eu fico pensando nos motivos que a pessoa teve para agir assim.
Ela esbaforida corre o tempo todo, eu procuro os intervalos dos arrotos.

Ela aquece de raiva, solta vapor de ira e demora a gotejar suas mágoas. Eu, quando sou agredido, demoro a constatar um incômodo e minhas raivas borbulham aos poucos.

Enquanto eu espumo, ela permanece cristalina.

Eu tenho a leveza de uma cerveja Pilsen, ela a delicadeza de um Saquê.

Eu sou Bock quando sou doce com quem está ao meu lado, ela um licor de ternura.

Eu sou encorpado pela sabedoria da experiência como uma cerveja Weissbier, ela como um Whisky 21 anos.

Eu sou amargo como uma Pale Ale quando estou de mal humor, ela vira aguardente quando irritada.

Enquanto as pessoas recomendam não misturar as bebidas, para nós, uma noite só é completa quando a gente combina uma destilada com um fermentado.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Os opostos ensinam um ao outro o outro o que lhe falta.
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 07/10/2017, Edição Nº 1480.