sábado, 2 de dezembro de 2017

Como Cão e Gato

Arte de Weberson Santiago



Na hora de acordar, as pessoas são como gato ou são como cachorro.

A Natália acorda como gato. O despertador toca, e ela desliga. Daí ela espreguiça e vira para outro lado. Dorme mais um pouco. Estica e vira para o outro. Alonga e vira de bruços. Parece aquele ritual felino preguiçoso.

Eu acordo como cachorro. O despertador toca e eu saio estabanado da cama: derrubo o celular no chão, tropeço no pé da cama, faço barulho para abrir e fechar a porta do quarto. Como o cachorro que, tomado pela felicidade, abana o rabo e esbarra nos objetos do caminho.

A cabeça da Natália acorda lenta como um gato que dispõe um pé depois do outro depois que levanta. Já aprendi que tudo o que eu falo durante a primeira meia hora depois que ela acordou corre sério risco de ser esquecido.

Não dá para combinar quem busca a Ane na escola, de pedir para incluir um item na lista de compras, muito menos para dar um recado que começa com “não esquece de...”. Ela vai esquecer porque está como o bichano que dorme de olho entreaberto.

A minha cabeça acorda agitada como cachorro de pequeno porte. Meus pensamentos acordam latindo como cachorros da raça Pinschers e ficam entrando na minha frente como se fossem Chiuhauas.
Minha disposição a iniciar a sequência de comportamentos antes de sair de casa é igual a animação de Labrador. Eu percorro a agenda do meu dia antes mesmo de chegar até a cozinha, como aquele cachorro que sobe e desce a escada enquanto espera o dono descer do carro desde quando ouve o barulho do carro se aproximando.

No final do dia, a coisa se inverte.

Com o meu madrugar canino, a energia de noite fica rebaixada e eu me torno um gato preguiçoso. Só quero encontrar a minha cama, afofar o edredom com as unhas, dar duas voltas em círculos e apagar.
Com seu acordar felino, a Natália chega pilhada a noite. Quer repassar os acontecimentos do dia e entender o que aconteceu, daí fica agitada como um cão. Fica cavando buracos no gramado dos pensamentos e sentimentos para enterrar os ossos do ofício.

As vezes a gente briga como cão e gato quando eu lhe exijo disposição de manhã e ela me cobra disposição a noite. Mas durante os dias, o cachorro é o melhor amigo do gato e o gato é o melhor amigo do cachorro. E durante as noites, não tem uma em que a gente não se aninhe na cama encostados para aquecer os nossos sonhos.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| O melhor amigo do homem é aquele que é tratado com afeto.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 02/12/2017, Edição Nº 1488.

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