sábado, 16 de dezembro de 2017

Natal com Fé

Arte de Weberson Santiago



Maria Celeste estava cansada da vida.

Cansada dos problemas financeiros por conta da crise. Do aumento das contas e do salário que não é suficiente para pagá-las. De viver apertada. De não poder dar tudo o que gostaria para os seus filhos.

Cansada da roubalheira da política, de ter de pagar pela inconsequência da ganância alheia. Ela que nunca roubara nada, que cresceu com o pai repetindo que “se para vencer estiver em jogo a sua honestidade, então perca. Assim será sempre um vencedor.” Ela que não gostava de apelar ao jeitinho, estava enojada de se deparar com pessoas tentando usar da esperteza para beneficiar a si mesmo, prejudicando as outras.

Exaurida de ter de cuidar dos problemas de saúde de seus pais idosos. De se deparar com o medo de perde-los, de angustiar-se ao vê-los experimentando a decadência do corpo e o fim da vida.

Cansada  de ser julgada. Pelos professores da escola pelo desempenho dos filhos. Pelas amigas pela falta de cuidados consigo mesma. Pelo patrão que não entendia seus problemas particulares. Por si mesma, que não aceitava os quilos ganhos e se culpava de vez em quando por não conseguir emagrecer.

Maria Celeste estava exausta de tanto correr e cansada de não ter férias. O ano havia passado rápido e ela estava cansada. Quando percebeu, o Natal estava chegando de novo.

Foi quando ela se viu irritada só de pensar que teria de montar a árvore de Natal e enfeitar a casa que Maria Celeste percebeu que algo estava errado com ela.

Ela havia sido consumida pelas dificuldades e, mesmo que estivesse dando conta das demandas de sua vida, em muitos momentos era tomada por sentimentos e pensamentos negativos. Tinha horas em que ela queria sumir, desaparecer.

Maria Celeste percebeu que, se nada fizesse, passaria o Natal sem fé. Tomou a decisão de cuidar de se mesma. Aproveitou a pescaria do marido no fim de semana e mandou os filhos para a casa da avó. Ela aproveitaria seu final de semana.

Ajeitou a casa, tomou um banho de ervas e sal grosso, arrumou os cabelos e fez a unha. Quando ficou pronta, sentou-se no sofá com as pernas esticadas e pôs-se a pensar na vida. Fez uma retrospectiva de tudo o que tinha passado.

Se perguntou quem ela era, o que estava fazendo na vida naquele momento, por que havia feito cada uma de suas escolhas. Foi preciso parar tudo para que Maria Celeste pudesse se recolher e sentir um pouco de paz. Ela precisou deixar tudo de lado para entender o motivo de cada coisa que faz.

O presente de Natal de Maria Celeste foi um fim de semana consigo mesma, e mais ninguém. Foi o suficiente para ela recomeçar a rotina com mais sentido depois de olhar a sua própria vida como se estivesse de fora. O que ela precisava era descansar de viver. Uma pausa consigo mesma.

Maria Celeste recuperou sua fé a tempo. Natal sem fé, não é Natal. Natal é renascimento. E ninguém renasce sem acreditar.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Meu desejo de um Natal com Fé para vocês que acompanham esta padaria de crônicas.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 16/12/2017, Edição Nº 1490.

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