sábado, 8 de setembro de 2018

O Lugar e o Olhar





Quando a Natália e eu fomos montar a primeira sala de atendimentos de psicologia só nossa, sem compartilhar com mais nenhum outro profissional, escolhemos cada um dos móveis com muito cuidado. Cheguei até a fazer uma planta no papel e recortar os móveis em escala para ver quais combinações ocupariam melhor no espaço.

Era a primeira vez que não usaria poltronas idênticas em minha sala de atendimento, o que foi usado na minha primeira década de clínica como estratégia de promover igualdade numa relação que nunca é igual, já que somos os especialistas que supostamente sabem de tudo e até chegamos a ter, na imaginação dos clientes, a capacidade de ler seus pensamentos e sentimentos, enquanto o cliente é alguém em sofrimento e, por isso, em situação vulnerável.

A psicoterapia é uma relação humana de troca. Para que possamos ajudar alguém, precisamos nos aproximar e criar um vínculo, o que chamamos de relação terapêutica.

Como resultado de um amadurecimento profissional, havia decidido que deixaria a responsabilidade de acolher e propiciar uma boa relação terapêutica “somente” à minha postura profissional e às minhas estratégias terapêuticas ao invés de confiar na simetria das poltronas como ingrediente essencial. Escolhemos uma poltrona confortável para o terapeuta e um sofá bem espaçoso e aconchegante para os clientes.

Quando os móveis foram chegando na nova sala, constatei que a poltrona Charles Eames que escolhemos para o terapeuta era um tanto quanto mais baixa do que o sofá dos clientes. Isso me incomodou. Fiquei incomodado com a diferença de altura porque gosto de olhar de igual para igual para com meus clientes.

Após os primeiros atendimentos, comentei com a Natália que estava cogitando mandar fazer uma estrutura de MDF para colocar a poltrona em cima e elevar a sua altura.

No dia seguinte a Natália me disse que considerava que a poltrona não era menor por acaso. Que ficar em um patamar abaixo da altura do olhar de nossos clientes poderia ter algumas vantagens. Questionei quais eram. Ela me disse que as pessoas que chegam deprimidas tendem a ter um olhar mais cabisbaixo e uma perda do tônus muscular na postura. Estarmos em um nível mais baixo nos permitiria observar melhor as expressões faciais e manter contato visual com estes clientes. Além disso, defendeu ela, aquelas pessoas muito egocêntricas e arrogantes – popularmente chamadas de “nariz em pé” – seriam obrigadas a “baixar o nariz” para receber nossos feedbacks.

Refleti e dei razão a ela. Percebi que eu queria mudar, mas estava inseguro com o risco da mudança, com medo de lidar com o diferente e com dificuldade para aceitar o novo. Embora esses sentimentos nos acompanhem em qualquer situação de mudança, precisamos passar por eles para conseguir mudar.

Se eu quero que meus clientes mudem de comportamento, fico em melhor posição de ajuda-los nesse processo quando também sou capaz de mudar e lidar com as consequências da mudança.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| O autoconhecimento é uma via de mão dupla. Quando eu ajudo o outro a se conhecer, passo a conhecer melhor como posso ajudar.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 08/09/2018, Edição Nº 1528.

sábado, 25 de agosto de 2018

A Dor Fantasma da Rejeição

Arte de Weberson Santiago



Um dos sentimentos mais difíceis de se lidar é o sentimento de rejeição. A atitude mais comum que produz este sentimento é a crítica excessiva ao que o outro tem ou ao que o outro é. Por mais incrível que possa parecer, a ausência de crítica também pode ter o mesmo efeito. A indiferença constante também pode produzir sentimento de rejeição. A negligência nas relações ou a sonegação de afeto também podem produzir o sentimento de rejeição.

Apesar de ser fruto do excesso ou da falta vindos da parte do outro, aquele que é rejeitado costuma atribuir a responsabilidade da rejeição a si próprio. "Talvez eu não seja bom suficiente para ser visto". "Talvez eu não mereça mesmo o amor que não recebo". "Talvez eu não seja tão importante para ser cuidado". Muitas vezes o talvez some da frase e a pessoa tem convicção de que não é boa, não merece ou não é importante.

O sentimento de rejeição é sentido como uma dor fantasma. Como se você tivesse perdido um braço ou uma perna, mas continuasse a sentir dor naquele membro quando constatasse a sua ausência.
Perceber que me sinto rejeitado dói. Uma dor que pode vir à tona diante de qualquer situação em que eu não seja aprovado, compreendido ou reconhecido. Também pode vir à tona quando sou criticado, invalidado ou passo despercebido.

Por isso me sinto perseguido pelo fantasma da dor. Quanto mais tento fugir de me sentir rejeitado, mais me aparecem situações para me lembrar da rejeição que sinto. E aí dói.
Meu terapeuta me disse que ao invés de fugir do sentimento de rejeição, deveria encara-lo. Mas é tão difícil.

Gostaria de encarar a rejeição direta e profundamente. Olhar no fundo dos olhos dela sem me abalar. Para demonstrar que sou indiferente a ela, que sou superior a ela, que ela não me controla. Mas eu não consigo olhar. Ela parece que sempre irá ganhar, que é mais forte do que eu.

No fundo eu nem tento, porque eu tenho medo de não suportar a dor que eu sinta. Será que é possível aprender a conviver com a rejeição? – me pergunto. Será que é possível superar essa dor? – penso.

Acho que eu não percebi, mas enquanto eu escrevia essas palavras eu estava entrando em contato com o sentimento de rejeição. Eu lidei com a minha rejeição quando resolvi escrever sobre ela. E por mais difícil que tenha sido entrar em contato com ela, eu consegui.

Acho que meu terapeuta tem razão: tentar fugir do sentimento de rejeição é o problema, e não a solução. A solução é entrar em contato com o sentimento e fazer algo produtivo com isso.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Entender o que se sente é sentir o que se entende.
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 25/08/2018, Edição Nº 1526.

sábado, 11 de agosto de 2018

Não Tenha Medo de Tirar o Celular do Seu Filho

Arte de Weberson Santiago



Aquele que nunca usou alguma forma de tecnologia para entreter o seu filho que atire a primeira pedra. Fica difícil manter as crianças longe do celular enquanto nós mesmos vivemos dependurados nos smartphones.

Defendo que o uso de celulares por crianças seja monitorado pelos pais e liberado apenas em alguns períodos, que o uso não seja livre. Ter o celular como concorrente de atividades escolares é criar uma concorrência desleal. É problema na certa.

Mas nossa falha começa bem antes da liberação da tecnologia. Quando sustentamos a tentativa de fazer com que o quarto perfeito que criamos na gestação se mantenha durante o crescimento de nossos filhos.

Queremos que nossos filhos tenham uma vida feliz, diferente da nossa, e lutamos para manter uma satisfação constante. Para que sejam felizes, multiplicamos iniciativas que lhes gerem satisfação e lhes poupamos de frustrações e esforços.

O resultado desta forma de agir? Ao invés de crianças felizes, temos nos deparado com uma fragilidade emocional enorme, uma baixíssima tolerância a frustração e uma constante angústia e infelicidade. Ou seja, produzimos o oposto.

É na infância que se aprende a lidar com o esforço, com a frustração, com os desafios, com os sentimentos negativos. Portanto, não tenha medo de tirar o celular ou tablet do seu filho. Você estará lhe ajudando a experimentar outras atividades, além de demonstrar preocupação e interesse ao colocar limites. As crianças andam muito carentes disso, pois nossa correria cotidiana lhes dá uma sensação de que não lhes damos atenção por que não são importantes.

Mas não é o suficiente retirar o celular. As crianças têm uma energia enorme e, na maioria das vezes, uma grande capacidade cognitiva que precisa ser utilizada em algo produtivo.

A energia deve ser canalizada para alguma atividade física. A tecnologia tem contribuído também para o sedentarismo precoce. Além de que a atividade física tem benefícios para a saúde física, emocional, social e até intelectual.

Para trabalhar a capacidade cognitiva, analise a capacidade do seu filho e crie “desafios” para que ele supere dentro de casa. Atribuir novas responsabilidades em tarefas domésticas, por exemplo, pode ser uma ótima maneira de ensiná-lo a lidar com esforço, a aprender cooperação e construir autonomia. Uma pesquisa no Google sobre isso pode lhe dar sugestões do que é possível fazer em cada idade.

Tem horas que precisamos parar de fazer e olhar para como a gente está fazendo o nosso papel. Só tentar fazer diferente do que fizeram com a gente pode não ser – e na maioria das vezes não é – o suficiente.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Quando o assunto é educação dos filhos, pequenos ajustes podem promover grandes resultados.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 11/08/2018, Edição Nº 1524.

sábado, 16 de junho de 2018

Mudar é Desconstruir para Reconstruir

Arte de Weberson Santiago



Quando a vida nos apresenta a desestruturação de algo que vinha fazendo parte de nossa rotina, costumamos ser tomados por diferentes sentimentos negativos: aborrecimento pelo surgimento de um problema, raiva por sermos retirados de uma situação aparentemente confortável, medo do que virá, incerteza do futuro, insegurança com a mudança, entre outros.

Só que esse mar de sentimentos não acontece de uma só vez e de cara. Primeiro somos estimulados a agir para resolver o problema. Os efeitos emocionais, embora possam surgir em alguns momentos da jornada da resolução, costumam vir à tona após o problema ter chegado ao fim.

Não que não tenhamos sentimentos enquanto estamos em um processo de mudança, mas só conseguimos olhar para eles quando paramos.

Mudar não é fácil. Parece que vai contra nossa tendência a preferir o conforto da estabilidade. Ao mesmo tempo em que encaramos uma mudança, tentamos abafar as emoções decorrentes dela como se isso fosse uma forma de passar bem pela mudança.

Na verdade, só se supera uma mudança e se aceita uma nova condição de vida quem encara e compreende os próprios sentimentos.

Se sofremos ao encarar o que era preciso mudar e durante o processo de mudança, o tempo revela que a mudança era a melhor coisa que poderia ter acontecido.

Ganhamos uma perspectiva quando superamos as dificuldades de mudar e os obstáculos presentes no processo de mudança.

Mudar é perder um pouco da estrutura. É como perder um pedaço do chão debaixo dos pés. Por isso é natural a sensação de medo da queda e o frio na barriga de perder o apoio e encarar a queda livre.
Desequilibrar é necessário para buscar retomar o equilíbrio. Cair é necessário para aprender a se levantar, a se reerguer.

Se só damos valor ao que perdemos, aprendemos a valorizar o que reconstruímos na nossa vida a partir da mudança.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Completo 200 crônicas em 7 anos nesta coluna. Obrigado a você que visita sempre esta padaria em forma de coluna. É pra você que eu escrevo! Obrigado Democrata pelo espaço.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 28/07/2018, Edição Nº 1522.

sábado, 2 de junho de 2018

Onde Morrem os Pássaros?

Arte de Weberson Santiago



Estávamos sentados no sofá da sala, olhando pela janela o movimento das enormes árvores do canteiro central da rua onde moramos, quando a Natália me perguntou:

— Aonde os pássaros morrem?

A pergunta me pegou desprevenido e eu, que nunca havia pensado nesta resposta, enchi-nos de outras perguntas. Todas ficaram sem resposta.

Tirando os casos de acidentes, em que um filhote cai do ninho e morre, das aves vítimas de atropelamento ou das que foram alvo de caça para outros animais, nunca havia me deparado na natureza com um cadáver de pássaro que tivesse morrido de morte natural.

No amanhecer em que escrevo esta crônica, ouço o canto dos pássaros vindo de todas as aberturas de minha casa. Logo cedo eles estão animados, fazem uma algazarra e partem para a caça. Uma sinfonia composta por diferentes cantos ecoa pelo bairro. Tenho a nítida sensação de que no lugar onde eu moro, existe infinitamente mais pássaros do que pessoas.

E mesmo com tamanha população, nunca me deparei com um pássaro morto. Aquela dúvida continuava a me intrigar. Por um momento, cogitei que voltassem para os seus ninhos, mas logo me lembrei que sempre que encontro um ninho, eles estão vazios.

Depois me passou pela cabeça que os pássaros poderiam se esconder para morrer, mas na minha infância nunca encontrei, nem soube de um amigo que tivesse encontrado, um cemitério de pássaros. Mesmo naqueles tempos em que ainda brincávamos pelas partes inexploradas da cidade ou no sítio de algum amigo, nunca vimos nada parecido.

Ouvimos os cantos com prazer, assistimos embasbacados o movimento das revoadas, aprendemos com a inteligência aerodinâmica dos bandos que fazem formação em V, admiramos a persistência de um pássaro que atravessa um oceano em nome da sobrevivência da espécie. E ainda assim, não sabemos onde eles morrem.

Fiz uma longa pesquisa por respostas, sem nenhum êxito. Não encontrei cientista que se incomodasse com a questão, mas fiquei intrigado com a pouca quantidade de fotos existentes de esqueletos reais de pássaros mortos, comprovando que ninguém encontrou esqueleto que pudesse ser fotografado. Em livros de biologia, só se encontram ilustrações.

O que me aquietou foi a resposta dada pelo poeta português José Gomes Ferreira, que em 1972, intrigado pela mesma questão colocada pela Natália, escreveu:

“Nunca encontrei um pássaro morto na floresta.

Em vão andei toda a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas…”

E concluiu:

“Os pássaros quando morrem
caem no céu.”

 UM CAFÉ E A CONTA!
| A ciência explica e aquieta a cabeça, mas só a poesia acalma a alma.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 02/06/2018, Edição Nº 1514.

sábado, 19 de maio de 2018

Apoderar-se do Seu Próprio Poder

"Apoderar-se do seu próprio poder!"
Tinta Acrílica sobre Painel de Augusto Amato Neto.



Apoderar-se do seu próprio poder significa usar aquilo que temos de melhor a favor de nós mesmos e dos outros. É utilizar as competências que nos diferenciam dos demais, aquelas habilidades que nos tornam únicos.

Apoderar-se do seu próprio poder é arriscar, ousar, surpreender. É descobrir que o atrevimento da tentativa é muito mais nobre do que a indiferença da passividade.

Apoderar-se do seu próprio poder não é usar o poder que vem junto com o lugar que você ocupa na sociedade para coagir e para humilhar.

Apoderar-se do seu próprio poder não é usar o seu status para mandar. Não é crescer em cima da fragilidade do outro. Não é ser autoritário, arrogante, prepotente.

Apoderar-se do seu próprio poder é ser reconhecido pelo que se tem de bom ao invés de ser conhecido pelo que lhe sobra de mal.

Apoderar-se do seu próprio poder é ser dono de si mesmo a partir do autoconhecimento, é ser amigo dos seus defeitos para que eles não trabalhem mais do que suas qualidades.

Apoderar-se do seu próprio poder é não ter medo de dar certo, de expandir, de assumir mais responsabilidades. Não é abraçar o mundo, e sim se jogar sem medo na vida.

Apoderar-se do seu próprio poder é tomar posse do “Eu posso!”. É não se acovardar diante do “eu quero!”. É persistir na busca do que lhe tem valor, sem desistir diante de dificuldades. Apoderar-se do seu próprio poder é alcançar onde parecia impossível tocar.

Apoderar-se do seu próprio poder é algo que se aprende. Ninguém nasce sabendo do que se é capaz até que algo ou alguém mostre ou reconheça. Primeiro é preciso descobrir para depois se sentir dono de suas próprias possibilidades.

Apoderar-se do seu próprio poder vale a pena pois ninguém é capaz de tirar isso de você. Dinheiro se ganha e se perde, propriedades passam de mãos em mãos, cargos nunca são eternos. Potencial nunca se perde, já que ninguém tira, e nem nunca acaba, pois é inesgotável. Está sempre disponível para ser utilizado. Em uma infinidade de possibilidades.

Aquele que se apoderou do seu próprio poder deixa marcas que o tempo não apaga.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| O que você tem e ainda não tomou posse?


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 19/05/2018, Edição Nº 1512.

sábado, 5 de maio de 2018

Treinando a Empatia

Arte de Weberson Santiago



Uma das habilidades mais importantes que um ser humano pode ter é a empatia. Todo mundo já ouviu falar essa palavra pelo menos uma vez, mas eu acredito que na prática conseguimos experimentar pouco o exercício dessa habilidade.

A definição mais comum de empatia é como a capacidade de se colocar no lugar do outro. Por isso as pessoas confundem muito a empatia com simpatia. Ser simpático é compreender o que o outro sente. Ter simpatia é ter afinidades com alguém e se sentir espontaneamente atraído a interagir com essa pessoa.

Quando digo que o fulano é simpático, estou descrevendo que o fulano gera em mim um bom sentimento é por isso eu tenho disposição para me aproximar do fulano, mas isso não significa que o fulano e eu sejamos empáticos.

Por conta da definição confundimos empatia com sensibilidade. Sensibilizar-se é quando eu compreendo o que o outro sente e faço alguma coisa para amenizar a sua situação. Agir com base nos sentimentos de pena não é empatia, é compaixão. Ajudar alguém que sofre é solidariedade, e não empatia.

Empatia é fazer o exercício de experienciar o lugar do outro. Não é entender como o outro se sente, é se imaginar de forma efetiva nas condições em que o outro se encontra, tendo como contexto a história de vida do outro.

Por isso é tão difícil desenvolver a habilidade da empatia. É difícil porque a habilidade é complexa e exige muito esforço. O esforço de desprender-se de si mesmo a cada vez que tendemos a enxergar o outro sobre o nosso próprio ponto de vista. Cada vez que você percebe que está utilizando as lentes da sua história para compreender o outro, você deve se esforçar para entender do ponto de vista do outro.

Desistimos antes de nos aproximamos do comportamento empático porque dá muito trabalho. Ficamos com preguiça de tentar de novo, e de novo e de novo. Nos contentamos com simpatia e com a compaixão, que também são sentimentos importantes na vida social, mas não são nem de longe a empatia.

Se você quer treinar a sua habilidade de empatia para que consiga se relacionar melhor com as pessoas, faça os seguintes exercícios:

1. Escolha uma pessoa que você admira e pense em como você se sentiria tendo a vida dela. O trabalho, a família, as responsabilidades, os prazeres, os medos, etc. Se perceber que está voltando a pensar como se fosse você mesmo ao invés da pessoa escolhida, gentilmente volte a buscar pensar como se fosse a pessoa. Avance aos poucos pelas diferentes áreas da vida dessa pessoa. Se o exercício se tornar cansativo, retome-o em outro momento.

2. Escolha uma pessoa que vem lhe incomodando e faça o mesmo.

O segundo exercício é um desafio maior que o primeiro, já que quando a pessoa desperta fortes sentimentos negativos em nós fica mais difícil deixá-los de lado para conseguir experienciar o lugar dela no mundo.

O desafio vale a pena: quando você conseguir ocupar de fato o lugar dessa pessoa em pensamento, talvez ela não seja mais tão incômoda para você.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Treinar a empatia é como fazer Pilates na parte psicológica.
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 05/05/2018, Edição Nº 1510.

sábado, 21 de abril de 2018

Pré-ocupação e Pró-cura

Arte de Weberson Santiago



Me peguei quase surtando com o excesso de tarefas. Os e-mails com solicitações se multiplicavam, mensagens no WhatsApp pipocavam com pedidos de clientes e tarefas de trabalho. Por mais que eu eliminasse algumas, outras surgiam, e a sensação que eu tinha era de que eram muitas demandas para pouco Augusto.

Cada tarefa vem acompanhada de um prazo, e a somatória dos prazos me pressionava, a ponto de pensar que eu poderia me perder e não conseguiria entregar as tarefas. Eu que sempre me gabei de não precisar de agenda para lembrar dos meus compromissos, percebi que era hora de rever minha maneira de pensar.

Se eu não tivesse uma clara noção de todas as tarefas no decorrer dos próximos meses, continuaria perdido no meio do excesso. Embora tenha a disposição a agenda do celular, resolvi apelar para o método tradicional: peguei um punhado de canetas coloridas e um calendário de mesa e comecei a marcar os compromissos, períodos de atividades e todos prazos finais para entrega de trabalhos. Em seguida, montei uma planilha de compromissos na semana, de maneira que pudesse ver onde eu estaria em que hora durante todos os dias.

Apesar de saber tudo o que pus no papel, parece que o calendário e a tabela de horários me acalmaram. Fizeram com que eu tivesse ao meu alcance a estrutura de funcionamento da minha rotina. Mesmo com muitas atividades, eu pude estabelecer uma hierarquia de prioridades que consideravam o prazo e a importância de cada atividade, bem como o melhor horário para fazê-las em meio aos compromissos.

A organização do ambiente ao nosso redor tem o poder de fazer com que nos sintamos organizados. Se a bagunça vai se acumulando, nossos pensamentos e sentimentos vão se desorganizando. Então eu entro no modo pré-ocupação: as pendências ficam vindo na cabeça mesmo que não tenha a possibilidade de resolvê-las naquele momento. No modo pré-ocupação, começo a me ocupar das minhas atividades muito antes de poder fazê-las. Isso gasta uma baita energia e desgasta, sem contar a quantidade de pensamentos e sentimentos negativos relacionados, como ansiedade, nervosismo, fadiga, entre outros.

Quando me pego assim, procuro ativar o modo pró-cura. Parto em busca de uma solução prática que possa me ajudar a sair da preocupação excessiva. Procurar uma alternativa para solucionar o impasse é minha forma de lidar com isso. Como é muito difícil sair de um modo pré-ocupação quando estamos nele, muitas vezes busco ajuda em alguma pessoa de confiança com quem compartilho meu dilema e essa pessoa me ajuda a pensar em uma alternativa. Geralmente conto com a Natália ou minha terapeuta. Busco compreender o que está acontecendo e fazer algo concreto para lidar com meus pensamentos e sentimentos negativos, ao invés de ficar paralisado e tomado por eles.

O grande desafio da vida moderna é conseguir fazer uma coisa de cada vez, sem pensar no que passou ou no que está por vir. Procure você também suas estratégias para lidar com isso.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Quando estiver no ápice da dificuldade, deixe tudo de lado e respire. Apenas respire.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 21/04/2018, Edição Nº 1508.

sábado, 7 de abril de 2018

Safada Irresistível


Arte de Weberson Santiago



Já foi considerado defeito de fábrica, mas nada mais delicioso do que uma mulher safada.

Ser parceiro de uma mulher safada é como ganhar na loteria. Você ganha tudo aos montes. Os beijos têm mais línguas. Os perfumes demoram mais a sair das narinas. As curvas parecem descida de serra para o litoral: parecem não ter fim e os parceiros terminam molhados.

Safada sem nenhuma vergonha de ser chamada assim. Sem-vergonha de ser assim: despudorada, ávida, desejosa. Faminta de sexo e de amor. Sedenta de viver com intensidade. Não ser chamada de safada pelo insulto, “mas por mérito da malícia, como virtude da insinuação, pelo atrevimento sugestivo”, como poetizou Fabrício Carpinejar. Não a safada, mas a sa-fa-da. Pronunciado com a canalhice do sorriso de canto de lábio.

Não a mulher safada que coleciona os homens que seduziu, mas a mulher safada que escolhe colocar toda a sua safadeza em prática com o homem que escolheu se aprofundar na relação. A safada que lhe manda flores para o cara no aniversário de relacionamento porque não gosta de ser convencional.

A safada que sabe o que quer entre quatro paredes, não por falta de educação, mas para satisfazer o seu desejo. Não por obediência do corpo, mas em nome da profundidade da alma. Safada por opção, não pela infelicidade de uma traição ou por uma falta de pudores. A Safada Irresistível que é o par perfeito para o Adorável Canalha, tão bem definido pelo Carpinejar.

A safada. Como uma pegada de jeito que usa a língua portuguesa ao invés das mãos. Não como depreciação, e sim como admiração. Um elogio para dizer que é impossível domesticar, é impossível prender essa mulher. Safada como um pokemon que evoluiu da mulher "sem-vergonha".

Bem diferente da trapaceira, que não é verdadeira e seduz com interesses secundários, ou da devassa, alguém que não presta nem para ser safada e invade a vida de alguém para fazer estragos.

Eu me desmonto ao estar diante de uma mulher safada. Uma safada que significa o contrário do dicionário. Nem perca tempo consultando o Michaelis e o Houaiss, que não incluem o sentimento da pronúncia. Estou falando da safada que evoca o desejo de desvendá-la. A safada que se descobre algo interessante e novo a cada encontro.

Safada funciona como um ataque. Não uma violência gratuita, mas uma tentativa de tiro certeiro para uma conquista definitiva. Uma tentativa sempre em vão. Não há isca que fisgue uma safada, porque ela sabe que a graça é fazer com que ele a conquiste a cada dia. É irresistível se entregar a dela.
Quando for escolher uma mulher para se entregar, não tenha dúvida: escolha uma mulher safada. Ou ela escolherá você.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Não adianta resistir, agora é a vez das mulheres.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 07/04/2018, Edição Nº 1506.

sábado, 24 de março de 2018

Não se Sabe Mais Trabalhar em Grupo

Arte de Weberson Santiago



Sou professor no ensino superior em cursos de Psicologia e também atuo no ensino médio em dois colégios como orientador vocacional e com educação socioemocional. Durante o exercício destas ocupações, andei incomodado com uma questão: cada vez mais os estudantes têm dificuldade de trabalhar em grupo.

Embora eu me dedique a criar um ambiente colaborativo, de respeito e união, utilizando de diferentes estratégias e recursos, em diversas situações identifico muita dificuldade de funcionar assim nos alunos com os quais trabalho. Acabo tendo que relembrar da importância do grupo em diversos momentos do trabalho desenvolvido e, o mais importante, ensinar como é agir pensando no grupo. Não que não haja desenvolvimento, não que eu não observe progressos durante o trabalho, mas é o excesso de dificuldade que me gera incomodo.

Qualquer professor que passe um trabalho em grupo, verá que os alunos não mais se reúnem, e sim dividem o trabalho em partes e cada um faz a sua, juntando as partes no final. O trabalho acaba parecendo um Frankenstein, já que cada parte é feita de um jeito e não há unidade nem harmonia entre as partes.

Isso não é fazer um trabalho em grupo, e sim entregar um trabalho com vários nomes. Fazer um trabalho em grupo é trabalhar em equipe: se unir em torno do mesmo objetivo, se reunir para levantar ideias, superar conflitos de divergência para poder avançar, se engajar na busca de materiais, produzir o trabalho em conjunto e obter um resultado com ele que, se for bem-sucedido, fortalece todos os comportamentos de trabalhar em grupo.

Quando o trabalho não é feito em partes, um ou dois membros do grupo fazem o trabalho inteiro, enquanto os demais não fazem nada. Às vezes, quem faz não reclama e quem não faz não sente a menor vergonha de não ter feito.

A vida é tão repleta de obrigações, pressão e problemas que, quando estamos em um grupo, acabamos nos comportando sob efeito das emoções que essas situações nos geram: ou me isolo e fico indiferente ao grupo ou então agrido com grosserias ou com brincadeiras que incomodam o outro e aliviam meus desconfortos emocionais. Raras são as pessoas que conseguem manter o equilíbrio, a gentileza e a doçura em tempos difíceis como esse em que vivemos.

Fomos perdendo a capacidade de colaboração e promovendo o individualismo. Os prejuízos de funcionar assim na sociedade já são visíveis. Muita divisão entre posições opostas, que nunca se propõem a ceder e a chegar em um consenso. A união não está presente nem naqueles que compartilham a mesma posição, que acabam criando conflitos entre si. E enquanto a gente se distrai discutindo entre si, o que está errado na sociedade não muda, permanece.

Eu não vejo outra saída para nossos problemas que não através da união e da colaboração. Eu estou fazendo o máximo que posso na formação dos adolescentes e universitários alcançados pelo meu trabalho para ensiná-los a importância e como se comportar em grupos. E você, o que pode fazer para mudarmos essa situação?

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Compartilhar objetivos, ter companhias nos caminhos e comemorar conquistas coletivas é muito mais gostoso do que fazer tudo sozinho.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 24/03/2018, Edição Nº 1504.