sábado, 13 de janeiro de 2018

A Maria da Padaria

Arte de Weberson Santiago



Toda padaria tem uma Maria. A Maria da padaria que eu frequento é briguenta e, as vezes mal-humorada, mas ninguém faz um pão francês com queijo minas, tomate e orégano como a Maria. Reclama da colega de trabalho que não faz o seu serviço, de um cliente chato, mas serve a gente muito bem e faz tempo.

Serviu o café das manhãs das nossas primeiras noites juntos, serviu a família quando a Ane era pequena e seu pão na chapa me serviu de ombro quando tive a primeira briga com a Natália. Eu cheguei cabisbaixo, emburrado. Ela notou e perguntou o que eu tinha. Falei que estava com um problema em casa e ela disse que tinha tido um problema de doença na família durante aquela noite.

Nem eu nem ela entramos em detalhes, mas a Maria me serviu até como cúmplice de um péssimo dia com problemas. Tentou me animar colocando mais espuma no pingado com café expresso de sempre para que tomasse o café com leite como se entrasse em uma banheira de hidromassagem. Eu retribuí dizendo que torcia para que o problema de saúde na família fosse resolvido.

Maria também não deixou de sorrir com o canto da boca quando nos assistiu entrando no café da manhã depois da reconciliação, demonstrando saber qual era o problema que eu me referia na visita anterior. Acabou esquecendo do resmungo no meio quando nos viu. E caprichou no pão francês com queijo minas, tomate e orégano que dividimos ao meio naquele dia.

Se ela sabe quando estou triste, eu sei quando a Maria está animada: ela passa um lápis azul claro na linha dos cílios das suas pálpebras. Mas ela também sabe quando acordo animado para ir ao trabalho:  “caprichou na camisa hoje, hein?!”.

No fim do último ano, cheguei e encontrei a Maria estabanada. Ela me contou que estava tentando parar de fumar e a ansiedade e o nervosismo estavam nas alturas. “Calma, Maria, tenta dar uma respirada. Isso que você está sentindo é a abstinência, mas ela passa. Corta uns palitos de cenoura pra ir comendo”, disse tentando ajudar. “Ih! Já chupei um pacote de balas e não adiantou nada!”, respondeu ela.

Uma semana depois, cheguei com a Natália e a Ane e perguntei para a Maria como estava no propósito de parar de fumar. Ela disse que não tinha conseguido, mas que ia ao médico para procurar um remédio que a ajudasse e iria tentar de novo assim que saísse de férias na segunda-feira. Eu fiquei triste pela tentativa frustrada, enquanto a Natália lhe animava a tentar mais uma vez.

E assim a vida vai passando enquanto a gente come o pão e toma o café preto de cada dia. Algumas coisas começam, outras terminam, mas a padaria e a Maria estão sempre ali, de braços abertos para a vida.

Toda padaria tem uma Maria, mas para nós, a Maria da nossa padaria é a melhor. Deve ser porque toda Maria tem uma padaria dentro de si para oferecer aos seus fregueses.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| O que você oferece as pessoas ao seu redor no café da manhã?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 13/01/2018, Edição Nº 1494.

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