sábado, 10 de fevereiro de 2018

Depoimento de um Viciado

Arte de Weberson Santiago



Tenho um vício e gostaria de reconhecer para, quem sabe ao torna-lo público, possa ficar menos escravo dele.

Como todo vício, começou na adolescência, por influência de outras pessoas. Quando dei por mim já não conseguia viver mais sem usar. Quando me dei conta, meu corpo havia se tornado escravo, não de uma, mas de duas substâncias.

Qualquer situação pede: se estou ansioso ou se estou desanimado; se estou entediado é para me distrair; se algo de bom aconteceu, uso para comemorar se me pego frustrado, é para afogar as mágoas. Quando conheço um novo amigo, o convite para o uso é para confraternizar. Se reencontro um amigo de infância, o ritual é para relembrar os velhos tempos.

Eu bem que já tentei parar, mas não consigo. Queria fazer um clareamento dental, mas só de pensar em ficar sem, vou adiando a consulta ao dentista.

Não é nada fácil ser viciado em café com leite.

Quem inventou essa mistura sublime não tinha boas intenções. A combinação é perfeita: o leite cremoso e o café encorpado. O branco e o preto que formam uma das cores que mais gosto: o café-com-leite.

A proporção ideal varia conforme o gosto do usuário. Mais claro ou mais escuro. Eu prefiro o leite integral com café expresso porque a espuma do leite obtida com o vaporizador se junta à espuma do café expresso. Cremoso! Meu maior prazer é estragar a arte desenhada na espuma do café com leite feito pelo barista – o nome que se dá ao especialista em café e suas combinações em receitas.

Mas tem dias em que o pingado de café coado é o pedido ideal. Mais fraco, e não menos saboroso!

Peraí. A boca salivou com essa detalhada descrição e fui tomado pelos sintomas de abstinência. Preciso de uma dose.

Pronto, de volta para a redação.

O café com leite servido em uma xícara de chá de boca larga é minha banheira de espuma. O servido no balcão em copo americano é a minha dose de cachaça. O expresso com espuma de leite é meu antiácido.

Tenho alguns álibis para justificar o vício: meu avô Raul tomava uma dose de café com leite de manhã e outra no fim da tarde. Culpa da genética!

Já que não consigo largar, pelo menos posso me orgulhar de ter a consciência de ser um dependente e de assumir o meu vício.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Tomar um cafezinho é um comportamento de fuga daquilo que estamos fazendo e que é cansativo.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 10/02/2018, Edição Nº 1498.

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